Isaac Sabbá Guimarães
Excelentíssimos acadêmicos, autoridades, senhoras e senhores,
Meu ingresso na Academia de Letras de Balneário Camboriú, passando a ocupar a cadeira 38, entre a plêiade de intelectuais de nossa cidade, convoca sentimentos. Sinto-me honrado pela nota de destaque em minha trajetória como autor; privilegiado, por poder conviver com a gente que trabalha a palavra empregando-a nos diversos campos da intelectualidade, na literatura jurídica, na poesia, no regionalismo gauchesco, no periodismo, na ciência médica, na crônica. Mas, sobretudo, assumo a responsabilidade de perseguir os objetivos desta casa de zelar pelo vernáculo, preservar a história daqueles que contribuem para o enriquecimento da intelligentsia regional e difundir a produção literária catarinense.
Sou acolhido por esta casa que muito tem feito para perpetuar a missão dos artífices da palavra. Digo que é missão, porque a vida intelectual exige abnegação, solidão e dedicação do cultor da palavra. Muitas vezes ouvi de meu pai que nada é feito ex nihilo – só a criação divina. Por isso, o intelectual sacrifica muito de sua vida pessoal para ler, estudar, aprender e criar. Um texto literário não é apenas a pura intuição do escritor ou seu dom para a escrita. É resultado de uma vida solitária, de verdadeira devoção aos livros. Sabe-se que Rilke se isolou no castelo de Duíno e, em sua biblioteca, escreveu elegias carregadas de simbolismo, um trabalho persistente de anos. Borges vivia imerso em sua rica biblioteca, onde estudava recluso por horas a fio, fazendo-nos crer estivesse quase sempre só. Alberto Manguel, discípulo do mais ilustre autor argentino, revela o amor por sua biblioteca, tendo escrito ensaios sobre esta temática, chegando mesmo a revelar o cuidado com que procedia ao encaixotamento dos muitos livros a cada mudança que fez, até estabelecer-se no Canadá. Goethe era dotado de inexcedível curiosidade, perpassando pelos estudos de idiomas, como o hebraico, pelas ciências naturais, incluindo a minerologia, do direito, da filosofia. Heidegger refletiu sobre o Ser e o tempo durante longo isolamento em sua cabana numa floresta de Keden, onde tinha por companhia livros, papel e caneta. Não foi diferente com os grandes de nossa literatura, bastando que lembremos de Euclides da Cunha, Coelho Neto, Ruy Barbosa, Gilberto Freyre, para ficarmos só em alguns exemplos.
Quem se envereda pelo trabalho literário, pensa a palavra como matéria-prima de sua obra, escolhendo aquelas que terão melhor cabida no texto, preocupando-se com a semântica, com a forma, com a sonoridade e sua compreensão. A palavra é caprichosa, assumindo-se polissêmica, devendo o escritor estar atento, seja para favorecer-se de seu aspecto dúbio a exigir a interação do destinatário do texto, que com ele travará um diálogo, seja para evitar as armadilhas que causam a incompreensão. Os antigos talmudistas respeitavam-na, como se cada palavra fosse dotada de nefesh, espírito próprio que conduz a efabulações infinitas. Maimônides penetrou no misticismo sobre a palavra, discreteando longamente sobre a semântica de ruach, nefesh e neshamah, vocábulos hebraicos com distintos significados para o significante espírito. O intelectual que faz da scriptura seu ofício de fé respeita-a, venera-a, trata-a com carinho, como se pretendesse chegar à comunicação divina. Não por outro motivo, Tomás de Aquino ensina-nos que a linguagem humana é imperfeita e o máximo que o homem pode aspirar é aproximar-se da linguagem perfeita, a de D’us. Conta-se que Eça de Queiroz lia e relia inúmeras vezes seus manuscritos com uma pena à mão, riscando palavras desnecessárias, alterando algumas, corrigindo outras. Hemingway, em seu celebrado livro Paris é uma festa, admite que relia seus contos e romances, riscando os adjetivos que lhe parecessem supérfluos, até chegar ao resultado satisfatório.
Como alguém que produz para o outro, o escritor reúne em seu ofício as qualidades da humildade, generosidade e o despojamento. Submete seu trabalho de artífice à apreciação do público ledor, do qual sairão não apenas as críticas laudatórias, mas também a verrina de uns e a censura de outros, já para não se falar dos sentimentos mais baixos que podem aflorar no ser humano. Escrever é, portanto, um ato de sublime humildade. Digo assim, embora pareça uma ideia antinômica, apoiando-me uma vez mais na sabedoria judaica, que fala da elevação pessoal pela humildade. O escritor, portanto, ascende a elevados níveis espirituais quando consente que seu trabalho se submeta ao leitor, mesmo com a possibilidade de críticas maldosas, para as quais não terá oportunidade de defesa.
Por outro lado, a publicação da produção intelectual é um ato de generosidade. É a entrega de um trabalho que consumiu o tempo do autor, durante o qual investigou, leu, escreveu, corrigiu e muitas vezes, por esmero pessoal de quem anela o melhor resultado, reescreveu-o. Não se conforma com o ato de comprazer-se com aquilo que julga belo e, fugindo à sina de Narciso, em vez de consumir-se no trabalho, compartilha-o com os leitores. Oferece sua obra, mesmo àqueles que a julgarão severamente. Vem a propósito uma cena que vi no metrô de Madri, quando uma jovem sentada à minha frente abandonou na poltrona ao seu lado um romance de Paulo Coelho, provavelmente por não se ter dele agradado – uma cena que com a sensibilidade de Roland Barthes daria um rico ensaio semiológico.
É, também, uma prática de despojamento pessoal. Ao produzir seu trabalho, o escritor desnuda-se e entrega-se ao exame daquele que o lerá. O texto, portanto, é prenhe de intertextualidade, subjazendo à obra a própria história do autor. Confessa-se como talvez não o fizesse em outra circunstância de sua vida. Sem pudores, sem o pejo de ser mal interpretado. Expõe seus gostos, paixões, preconceitos, tendências, inclinações ideológicas. Mesmo que não pretenda, confessa-se. Em certa ocasião, Wittgenstein escreveu no diário o descontentamento por pensar como um judeu ao enfrentar uma de suas aporias filosóficas. O filósofo austríaco assimilou-se com todo esforço, negando sua origem judaica, contudo, o leitmotiv de sua filosofia, como de outros judeus de seu tempo, a exemplo de Ernst Cassirer e Walter Benjamin, era puramente judeu. Ao tratar da filosofia da palavra, Wittgenstein confessava-se judeu.
Rachel de Queiroz, que dá nome à cadeira 38 desta Academia, foi a intelectual que reuniu essas qualidades. A tímida Rachel, que pouco falava de si, tornou evidente o embate entre o localismo e o cosmopolitismo de que trata Antonio Cândido ao referir-se à evolução da literatura. Com sua obra inaugural, O quinze, a menina de 20 anos causou uma fissura ao realismo nacional, impregnado de adornos linguísticos e excessivamente descritivo, como se vê, v.g., em Euclides da Cunha, dando expressão ao regionalismo, contando a realidade do sertanejo retirante. Daí em diante, vemos uma autora multifacetada, que narra o sertão nordestino, mas não deixa de se alicerçar nos grandes nomes da literatura internacional, tendo traduzido Dostoievski, Emily Brontë, Tolstói, dentre outros. Não se limitou ao romance: escreveu contos, crônicas e poesias. Em 1977 teve sua obra reconhecida, tornando-se a primeira mulher a ingressar na Casa de Machado de Assis. E já ao fim da vida, numa de suas poucas entrevistas, disse: “Minha vida não tem nada de mais”.
Rachel inspirou muitas gerações de leitores. Quando ainda ginasiano li O quinze, romance permeado pelo coloquialismo e pelo estilo descritivo, a imagética criada no texto fez-me sentir a atmosfera do sertão nordestino, o solo seco e as vidas flageladas dos sertanejos. A romancista cearense contribuiu para meu interesse pela leitura. Mas o gosto dos livros e a inclinação para a escrita são tributários daquelas pessoas de meu ambiente e convívio – sou nisso devedor de todos quantos permeiam intimamente minha vida. Agradeço ao meu Pai, que me ensinou a transitar por sua vasta biblioteca, percorrendo com o dedo indicador as prateleiras de onde saca um ou outro clássico, a eles referindo-se com entusiasmo e, pequeno, quedava-me atento ao ouvi-lo recitar Vallejo, da Costa e Silva, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Kaváfis; à minha mãe, que nos seus momentos de descanso, sentada na poltrona da sala de nossa casa, voltava aos antigos romances de sua juventude, tornando-se exemplo; à minha esposa e à minha filha, por compreenderem a ausência quando estou encerrado em minha biblioteca e por incentivarem-me a escrever.