“Menor que meu sonho,       
não posso ser”
Lindolf Bell

Antônio Augusto de Assis

Antônio Augusto de Assis é Membro Correspondente da Academia de Letras de Balneário Camboriú para o Estado do Paraná.

O MELHOR LUGAR DO MUNDO
A. A. de Assis

Nasci em São Fidélis-RJ. Com 20 anos, mudei para Bauru-SP, onde permaneci durante um ano e meio. No dia 17 de janeiro de 1955, viajando de jipe em companhia do meu irmão Luiz, cheguei a Maringá para iniciar vida nova. Paramos em frente ao Bar Central, na praça hoje denominada Napoleão Moreira da Silva, para tomar um refrigerante. Lá estava o pioneiríssimo Ângelo Planas, a primeira pessoa a quem fui apresentado em Maringá. Meu irmão já o conhecia lá de Bauru e lhe disse que eu estava chegando para morar aqui. Planas me deu um abraço e garantiu: “Parabéns, menino. Isto aqui vai ser logo a melhor cidade do mundo”. Acreditei sem reticências. Gamei pela cidade à primeira vista. Virei maringaísta no primeiro impacto.
     Hospedamo-nos no Hotel Esplanada, então existente na Avenida Duque de Caxias, perto do escritório da Companhia Melhoramentos. Nunca me esqueci do primeiro banho. Tendo entrado no chuveiro com o corpo inteiramente coberto pela poeira da estrada, via a água rolando vermelhinha, uma coisa linda. À noite jantamos na Churrascaria Guarani e na manhã seguinte, com a cara e a coragem, assumi minhas novas funções: gerente de uma lojinha de peças de automóveis que meu irmão e um cunhado dele haviam comprado de um parente. Luiz voltou para Bauru e fiquei morando sozinho numa casa de madeira nos fundos da loja.
     Vim de lugares antigos, encontrei aqui uma cidade nascendo. Misturou tudo na cabeça: a sensação de que eu havia entrado de penetra num filme de faroeste; sonhos de rapaz vendo o futuro abrir-se à sua frente; aquela poeira colorida com cheiro de vida; aquela gente apressada passando nas ruas com suas botas e chapéus de palha; caminhões puxando madeira; jipes trotões levantando redemoinhos; de noite o tuque-tuque dos motores de luz, e eu ali no meio, um fluminense romântico fascinado pela chance de mergulhar na aventura do pioneirismo.
     Villanova era o prefeito, o primeiro do município, e o pessoal começava a falar em novas eleições. Puxa, que emoção: eu ajudaria a escolher o segundo prefeito de Maringá. Transferi meu título, votei no Haroldo. Mas o Américo era um candidato diferente, tocava viola, falava simplão, arrumava as ruas com sua motoniveladora, ganhou a eleição.     
     O transporte da maioria era a bicicleta, a lambreta, ou a circular do Polônio, que de vez em sempre atolava na Avenida Brasil, obrigando os passageiros a descerem para empurrar. Os mais abonados rodavam de jipe ou perua. Eu tinha uma monareta. 
     A diversão durante a semana era ver algum filme no Cine Maringá ou no Cine Horizonte. No sábado um baile no Aero Clube ou no Grêmio dos Comerciários. No domingo matinê dançante e em seguida a primeira sessão do cinema, terminando com a saideira no Bar Colúmbia. Bons tempos. Primeiros tempos da futura melhor cidade do mundo. Planas tinha razão.


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(Crônica publicada no “Jornal do Povo” – Maringá – 27-02-2020)
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O menino que nasceu voando

A. A. de Assis

Que pena que a memória é curta e o descapricho é grande. Aconteceu muita coisa importante em Maringá ao longo dos 65 em que aqui estou. Os fatos ficaram na lembrança, porém sem anotações quanto a determinados detalhes.

Por exemplo: a história de um menino que nasceu nas nuvens, dentro de um avião. Nos poucos registros a respeito, a primeira divergência é sobre a data: uns dizem que foi no dia 19 de julho de 1957 (data que me parece mais provável), outros falam em 10 de maio de 1958.

A população ouviu pelo rádio a notícia de que um avião da Vasp estava se aproximando de Maringá trazendo a bordo uma cena de cinema: uma jovem senhora entrara em trabalho de parto e precisou ser socorrida pelas aeromoças, que improvisaram algo parecido com cama no corredor da aeronave. Era um daqueles velhos e valentes Douglas DC-3, bimotor que prestou preciosos serviços aos nossos pioneiros.

Correria louca na cidade: uma ambulância com a sirene aberta abrindo caminho na Avenida Brasil. Radialistas, jornalistas, fotógrafos em disparada para não perder o furo de reportagem (televisão ainda não havia por aqui). Curiosos chegando de carro, de moto, de bicicleta, a pé. De repente o antigo aeroporto Gastão Vidigal foi tomado por uma enorme multidão.

Eu lá no meio, junto com o Manuel Tavares (diretor de “A Tribuna de Maringá”) e o fotógrafo Edgar Taborianski, já ensaiando a bela manchete em oito colunas para a edição do dia seguinte. “O menino que nasceu voando”.

O comandante do avião, bastante emocionado, ia informando ao pessoal de terra (creio que só um rapaz que cuidava do aeroporto), sobre o andamento da emergência. Pedia que a ambulância se postasse perto da pista de pouso e que os médicos e enfermeiras ficassem prontos para um procedimento imediato.

Não deu tempo. O bebê veio à luz dentro da aeronave, antes da aterrissagem, com a corajosa e eficiente ajuda das comissárias de bordo e o aplauso dos passageiros.

A história virou notícia nacional. O menino, que já nasceu famoso, foi registrado e batizado em Maringá, com um nome bem adequado: Miguel Vaspeano. Miguel por haver nascido voando, como um anjo; Vaspeano, como homenagem à Vasp, que lhe serviu de maternidade. Informou-se depois que a direção da empresa considerou tão importante o evento, que estaria até disposta a patrocinar os estudos do garoto até a universidade.

Mas veja como o destino às vezes surpreende. Miguel Vaspeano Lepeco fez carreira como piloto de táxi aéreo, voou durante 25 anos e terminou a biografia do mesmo modo como começou: morreu num acidente de avião, aos 52 anos, nas proximidades de Manaus, no dia 13 de maio de 2010. Ele pilotava o avião Sêneca prefixo PT JUV.

Se não há, deveria haver em Maringá uma Rua Miguel Vaspeano.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 16-4-2020)
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Testemunha ocular da história

A. A. de Assis

Uma das vantagens de ser velho é ter sido testemunha ocular de um longo período da história (quem se lembra do Repórter Esso?). Especialmente quando se trata da história de um tempo durante o qual o progresso da humanidade deu uma cambalhota completa.

Lucilla e eu nascemos na terceira década do século 20, quando o futuro estava apenas começando. Mas já havia trem (o maria-fumaça); havia automóvel (o fordinho pé-de-bode); havia até avião (o teco-teco). O telefone era acionado com manivela, mas falava; o cinema era em preto e branco, mas já não era mudo; o rádio era chiado, mas dava para ouvir as belas serestas da época; a televisão parecia ainda coisa de ficção cientifica, mas já estava em processo adiantado de invenção.

Quando nasceram nossas filhas, o mundo estava bem mais avançado. A televisão já existia e começava até a transmitir em cores, o telefone falava em DDD e DDI, os aviões voavam a jato, a criançada crescia protegida por múltiplas vacinas e a música vinha gravada em long-playings, tocando Beatles e Rolling Stones, mais aquela turma toda da MPB: Jobim, Vinícius, Gil, Caetano, Vandré, Roberto, Gal, Elis...

Os netos encontraram tudo isso em versão mais moderninha ainda, e ao sair do berço já começavam a mexer com o computador, o celular e mil outras maravilhas lançadas a cada instante no mercado pela tecnologia eletrônica.

Agora já temos três bisnetos. Que será que eles vão ver que nós não vimos ainda? Sabe-se lá quantas novidades os esperam. Inventos fantásticos, certamente. Mas sobretudo sonho para eles um mundo mais justo, mais saudável, mais calmo e mais limpo, onde reinem a paz e a alegria.

Os cinco netos, cada qual na sua vez, pintaram e bordaram com o vô: montaram nas minhas costas, me levaram pra ver desenhos no cinema, lanchar na pizzaria, comprar revistinhas, passear no parque...

Com os bisnetos começou tudo outra vez. Eles inauguraram uma nova edição em nossa família, que começou pequenininha na jovem Maringá dos pioneiros, cresceu, multiplicou-se e hoje é parte de um numeroso clã.

Terão chance de chegar ao século 22, mas nem imagino como será o mundo quando tiverem a idade que tenho agora. Na mobilidade urbana usarão algum equipamento para voo individual. Nas viagens a Nova Iorque ou Paris disporão de aeronaves que farão o percurso em menos de uma hora. Contarão com algum aparelhinho tipo relógio de pulso que lhes permitirá conversar com qualquer falante de qualquer língua... E sabe-se lá mais o quê...

Deus os abençoe e lhes dê uma vida bonita e longa. E que possam ajudar a fazer deste planeta um lugar onde todos disponham de condições para viver felizes.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 21-5-2020)
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Relógio de bolso

A. A. de Assis

Nunca me esqueço de uma crônica publicada há mais de meio século na revista “O Cruzeiro” pela célebre jornalista Rachel de Queiroz. Falava de um homem que passou a usar relógio de pulso porque não tinha tempo para ver as horas no relógio de bolso.

Naquela época já as pessoas começavam a tornar-se escravas dos ponteiros. Para dar uma olhada no Omega pataca de bolso você perderia alguns valiosos segundos. No fim do dia, esses segundos, somados, dariam mais de cinco minutos. Já pensou?...

O relógio de pulso tem a vantagem de ser funcional. Você pode ver as horas sem interromper o que está fazendo. Por isso ele se adaptou tão bem ao ritmo do homem moderno, aposentando o elegante “colega” outrora carregado na algibeira com direito a correntinha.

Um desses sujeitos superorganizados decidiu medir o tempo que a gente perde durante o dia. Aqueles segundos gastos à espera de que o semáforo nos dê passagem: cada semáforo é um atraso de vida; cada tartaruga, cada quebra-molas... quantos segundinhos desperdiçados nesse stop-start do trânsito urbano...

A espera pelo sinal do telefone, a espera pelo elevador, a espera da vez de falar com o gerente no banco... Espera aqui, espera acolá, espera isso, espera aquilo...

No final da tarde, com o mapa da cronometragem rigorosamente montado, o sujeito chegou à calamitosa conclusão de que um homem de negócios perde, durante o espaço útil de um dia, nada menos que sessenta e cinco minutos e quarenta e dois segundos.

São cerca de quatrocentas horas por ano, gastas em esperas. Transforme essas quatrocentas horas em dinheiro e veja o tamanho do prejuízo...

Mas quer saber de uma coisa? Se a gente pega a mania de medir o tempo perdido nisso ou naquilo, acaba enlouquecendo.

Todos estamos hoje esmagados pela necessidade de aproveitar cada minuto em alguma “coisa prática”. De manhã à noite é essa correria maluca. Daí todo mundo fica se queixando de estresse. Mas todo mundo continua na mesma pressa.

Por que? Por causa de uns dinheirinhos a mais? Será que os seus compromissos são assim de tal modo urgentes? Ou é você que não sabe mais parar?

Ah que saudade do relógio de bolso... Um amigo meu confessou que um dos seus bons sonhos é um dia dispor de tranquilidade para usar um desses mimos no bolso do colete. Quem sabe acerte na mega sena e possa dar-se o luxo de não mais se preocupar com as horas.

Disse que outro dia viu um numa vitrine, igual ao do seu avô. Falou ao dono da relojoaria: “Guarde esse bacanudo aí, que ele ainda vai ser meu...”

O homem olhou meio desconfiado e foi atender outro freguês. Ele também não podia perder de forma alguma o seu precioso tempo.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 04-6-2020)
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Baile pé no chão
A. A. de Assis

Sempre que revejo algum daqueles filmões que mostram como era a vida no velho oeste norte-americano, vem-me à memória a Maringá pioneira das duas primeiras décadas – anos 1940 e 1950. Pouco mais que um vilarejo cercado de matas e cafezais por todos os lados. Gente vinda das mais diferentes origens, misturando costumes, sotaques, projetos de vida.

Naquele cenário rústico viviam as primeiras esperançosas famílias da comunidade nascente. Mas o que faziam aqui os valentes desbravadores, além de dar duro na roça ou no comércio em busca de oportunidades para garantir o pé-de-meia?

Havia uns três cinemas que exibiam fitas novas cada noite, havia uma estação de rádio com animados programas de auditório, havia alguns bares e sorveterias.

Havia até onde dançar: o Aero Clube, um espaçoso salão de madeira, que ficava na Avenida São Paulo, ao lado do bosque que futuramente viria a ser o Parque do Ingá. Bem ali onde está hoje o supermercado Mufato Gourmet.

Tinha matinê dançante todo domingo à tarde e “baile oficial” uma vez por mês. A música era costumeiramente da orquestra do Penha ou do Britinho e seus Cometas, mas em ocasiões especiais, como os bailes de debutantes, vinha orquestra de fora, como a de Nélson de Tupã ou a de Severino Araújo, do Rio de Janeiro. As moças iam de vestido chique e os moços de terno e gravata, coisa fina. Os advogados promoviam ali o Baile do Rubi. As escolas as festas de formatura. Muitos dos primeiros casamentos entre jovens maringaenses resultaram do namoro iniciado ao som de um bolero dançado de rosto colado no velho e bom Aero.

O problema era quando chovia. Como não havia nenhuma rua asfaltada ou calçada na cidade e o barro era farto e grudento, homens e mulheres iam para o baile com os pés no chão, levando os sapatos numa sacola. Chegando ao clube, entravam por um portão lateral. No fundo do salão, junto às quadras de basquete e vôlei, havia um tanque comprido, onde todos lavavam os pés antes de colocar os calçados para entrar na pista de dança.

Nos dias secos era um pouco diferente. O pessoal chegava com os sapatos nos pés, mas levando na sola a poeira vermelha das ruas. Daí que várias vezes durante a noite o baile era interrompido para que os funcionários jogassem água no salão a fim de baixar o pó. O legal era que ninguém reclamava. Era o jeito de ser da vida pioneira e todo mundo se adaptava.

O Aero Clube e seu vizinho Grêmio dos Comerciários foram os pontos de encontro, festa e namoro da população local até a virada dos anos 1950 para a década de 1960. Nesses dois salões se reuniam democraticamente todas as faixas da sociedade. A mudança começou a partir da criação de outros clubes, mais modernos, mais completos, e por isso também mais caros: Maringá Clube, Country, Hípica, Olímpico. O pioneirismo acabou ali, dando lugar à formação de uma grande aglomeração urbana igual a tantas outras.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 11-6-2020)
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                                                                               Francisco, o poeta

A. A. de Assis

         Sua festa se faz no dia 4 de outubro. Gosto muito dele, um santo e tanto, o bom Francisco de Assis. Não somente por ser ele santo, e santo forte e alegre e sábio; mas também por ser poeta, e máximo.

          Poeta mesmo, de entender e amar integralmente a gente e o mundo e a vida. Poeta da ternura e da partilha. Poeta do amor valente e generoso e da coragem de doar-se. Poeta do não-ter, por lhe bastar o ser. Santo-poeta da total pureza.  

          Francisco vem há oitocentos anos tentando convencer a humanidade de que a alegria está nas coisas simples. No balé dos lírios, que não tecem nem bordam, e no entanto se vestem mais belamente do que Salomão. Na traquinice dos pássaros, que não plantam nem ceifam, e no entanto jamais sofreram privações.

          Poucos souberam viver tão assumidamente a poesia da fraternidade. Levando paz aos corações tumultuados pela violência. Levando esperança às almas sufocadas pela angústia. Levando luz às mentes perturbadas pelo medo e pela dúvida. Disposto sempre a perdoar antes mesmo de ser perdoado, a amar antes mesmo de ser amado. E ensinando a gente a aceitar a chamada para o céu como aurora da eterna graça.

          Francisco foi um descomplicador da vida, virtude própria do poeta intrínseco. Despojou-se de toda coisa inútil, para ser somente um homem bom.

          Hoje Francisco seria um dos grandes líderes na luta contra a fome, contra a doença e contra a indigência cultural.

          Seria um vigoroso apóstolo da natureza, pedindo aos povos que continuem prosperando, mas sujando menos o ar e as águas; que continuem produzindo alimentos, mas usando com mais prudência os agentes químicos; que continuem construindo o que for necessário para o bem da humanidade, mas sacrificando menos os bosques e as florestas. Seria um incansável protetor dos animais. Mas por certo encontraria tempo e fôlego para ser também o de que tanto gosta: um entusiasmado animador de todos os grupos empenhados em semear e manter viva a poesia na face da Terra.

          Francisco, o poeta. O nosso poeta. O santo da bondade, irmão querido de cada um de nós, irmão do sol, da lua e de cada uma das estrelas, irmão das plantas, irmão das aves, irmão dos peixes, irmão de todos os bichos de todas as matas, e das borboletas que brincam de flores nos jardins. Francisco, irmão da natureza inteira, irmão de tudo quanto Deus criou.

          A bênção, meu São Francisco. Me ensine a ser poeta um pouquinho assim como você. O mundo precisa muito de uma urgente franciscanização.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo - Maringá – 01-10-2020)

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A grande gincana

 A. A. de Assis

 Durante muitos anos Lucilla e eu participamos de uma equipe que promovia encontros de preparação de noivos para o casamento. Um dos momentos mais bonitos era quando o Dr. João Batista Leonardo falava sobre a maravilha que é o nascimento de uma criança.

     Todos nós – dizia ele – iniciamos nossa existência disputando uma fantástica gincana. No ápice de um ato de amor, o homem transfere para a mulher cerca de trezentos milhões de espermatozoides, ou seja, trezentos milhões de candidatos à vida, dentre os quais apenas um sobrevive: o que chega em primeiro lugar ao óvulo que o aguarda na tuba uterina. Os demais perdem a chance de existir, a não ser nos raros casos em que nascem gêmeos.

     Você, eu, Pelé, a rainha da Inglaterra, aquela moça que ontem o atendeu na loja, todos passamos um dia pela grande gincana. Para que pudéssemos estar aqui agora, trezentos milhões de irmãos nossos foram privados da graça de vir à luz. Fascinante mistério.

     Toda vez que penso nisso me dá um arrepio. Um privilegiadíssimo espermatozoide se une a um privilegiadíssimo óvulo e juntos possibilitam a geração de uma nova vida, que por sua vez será uma mistura de genes – metade do pai, metade da mãe.

     Mas por que justamente aquele espermatozoide? Por que justamente aquele óvulo?

     E por que razão teria sido justo você o campeão da gincana? Decerto você não venceu por acaso, nem por ser o mais formoso, nem por qualquer outro mérito desse tipo. Você foi o eleito porque lhe estava reservado algum papel muito especial.

     Cada um de nós é chamado a cumprir determinada missão na história do nosso tempo, no lugar onde existimos. Somos atletas do time de Deus, e ele nos escala para atuar nessa ou naquela posição, confiando-nos para tal os necessários talentos.

     Vale repetir: por que nasci? Por que você nasceu? Por que justamente você e eu e não outro daqueles trezentos milhões de irmãos que conosco disputaram a graça da vida? A responsabilidade é muito grande.

     Sei lá... Não dá para imaginar como será a prestação de contas ao final de nossa passagem por este planeta. Mas na porta da eternidade, diante de Deus e de nossa consciência, teremos que justificar de algum modo a enorme confiança que em nós foi depositada.

     Acredito que os pecadinhos e outras travessuras da gente nem serão contabilizados. Não será por eles que perderemos pontos na carteira. O que vai contar mesmo será o que tivermos feito, ou não, dos talentos postos à nossa disposição quando aqui chegamos.

     Cada um de nós entrou na vida equipado para fazer algo de bom pela humanidade: produzir alimentos, construir pontes, alfabetizar crianças, propagar a fé, pilotar veículos, curar doentes, defender as leis, lidar com números, governar, tocar piano, escrever poesia, jogar futebol, costurar, cantar, pintar, fazer rir. Seja lá o que for, penso que pecado realmente grave será não ter feito, e da melhor maneira possível, o que nascemos para fazer.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 19-11-2020)

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Seu Manoel Poeta

                                                                       A. A. de Assis             

Era como a ele se referiam alguns dos seus conviventes na fazenda do Mato Grosso do Sul, onde foi morante quase que pela vida toda, até quando se despediu em 2014 para ir brincar de anjo lá no em cima do azul.

     Manoel de Barros, um senhor poeta. Seu Manoel Poeta. Ele e Quintana, para o meu gosto, os dois máximos do Brasil. Que pena terem tido de ir embora. Gente assim não deveria ir nunca. Faz falta aqui. Falta demais.

     Peço licença hoje para sentir saudade de Seu Manoel. Não vou falar da biografia dele; disso já muito se falou. Vou recurtir a poesia dele. E se você tiver aí um tempinho, venha junto. Aqui na minha frente tenho um dos seus livros – “Meu quintal é maior do que o mundo”. O livro todo é uma festa de amor à natureza, à simplicidade, à alegria da vida. Vou recortar e enfileirar abaixo uns pedacinhos das coisas gostosas que ele escreveu.

     “No começo enxada teve seu lugar. Prestava para o peão encostar-se nela a fim de prover seu cigarrinho de palha. Depois, com o desaparecimento do cigarro de palha, constatou-se a inutilidade das enxadas. O homem tinha mais o que não fazer”.

     “Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado, como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia. Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia”.

     “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”. “Ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”. “Passei anos procurando por lugares nenhuns. Até que não me achei – e fui salvo”.

     “São Francisco monumentou as aves. Vieira, os peixes. Shakespeare, o amor. Charles Chaplin monumentou os vagabundos”.

     ”As palavras eram livres de gramáticas, por forma que o menino podia inaugurar. Podia dar às pedras costumes de flor”. ”Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando”.

     “Pertenço de andar atoamente Fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo”.

     “A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. Com o tempo o menino descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira”.

     “Se eu quisesse caber em uma abelha, era só abrir a palavra abelha e entrar dentro dela, como se fosse a infância da língua”. “Quando eu crescer eu vou ficar criança”.

      “Tentei descobrir alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre as coisas profundas. Consegui não descobrir. A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei”.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 26 -11-2020)

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O sofrido Natal de Mário

A. A. de Assis

Eram os anos 1950, Maringá uma cidade nascendo. Mário, solteiro, português recém-chegado da pátria, morava em hotel, comia em restaurantes, nenhum parente no Brasil.

Naquela véspera de Natal, saiu às ruas pensando em como passar o tempo. A missa do galo seria às 20h. Mário acompanhou os passantes, foi rezar também. Terminada a celebração, a cidade esvaziou-se, as famílias recolhidas para o aconchego em torno da ceia.

Rodou à procura de um lugar onde pudesse afogar a tristeza numa taça de vinho, num jarro de chope. Nenhum restaurante aberto, sequer um botequim. Em ocasiões assim a dor do imigrante solitário é terrível. Mário recordava as festas de Natal em sua aldeia. A árvore enfeitada. A troca de presentes. O presépio. A grande mesa reunindo pais, avós, irmãos, vizinhos. Menestréis gorjeando nas esquinas. Sinos alegres saudando a vinda de Jesus.

Caminhando pelas ruas poeirentas, ele ouvia a felicidade que brotava de dentro das casas. O hotel só dava dormida, não servia refeições, e estava sem hóspedes naquele Natal. Mário não tinha nem mesmo uma namorada aqui, só pensava na noivinha que deixara à sua espera na Europa. Tinha alguns conhecidos na cidade, porém não queria incomodá-los: estariam reunidos em família, alguns teriam viajado. Retornando ao hotel, trancou-se no quarto, chorou. Tão fortes os soluços, que a proprietária ouviu, bateu à porta: “O que houve, meu jovem? Está sentindo alguma coisa? Quer que lhe chame um médico?”

Ora, médico! Não existe injeção para saudade. A dona do hotel logo compreendeu, trouxe um copo d’água, emprestou o ouvido ao moço para que ele desabafasse. Ao percebê-lo mais calmo, convidou: “Você vai cear conosco. Estamos em casa somente eu, meu marido e um filho; gostaríamos muito de ter a sua companhia”.

Vieram-lhe à lembrança histórias que seus pais contavam. A angústia de Maria e José hospedados numa estrebaria para o Menino nascer. Aquelas palavras do Mestre: “Fui estrangeiro e você me acolheu”. Ele ali sentindo fundo o drama do imigrante solitário, e ao mesmo tempo conhecendo a graça de encontrar amigos numa terra tão distante da sua. A mesa farta, a família feliz, as orações. Ele jamais agradecera a Deus com tamanha emoção.

Tudo isso borbulhava forte no coração de Mário. Trabalhou muito, fez seu pé-de-meia, mandou vir da pátria os irmãos, foi lá, voltou casado, nunca mais passou um Natal sozinho. Ficou, porém, a marca. Pensou nas crianças abandonadas. Como seria o Natal dos órfãos? Como se sentiriam os meninos sem lar?

Aquela simpática dona de hotel talvez jamais viesse a saber que Mário, ao longo da vida, retribuiria a generosidade dela diminuindo as aflições de centenas de crianças pobres. Fez do amparo a elas uma razão de existir. Tanto quanto estivesse a seu alcance, não deixaria ninguém chorar de solidão como chorou ele naquele sofrido Natal em Maringá.

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 17-12-2020)

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Ó tempos, ó costumes!

A. A. de Assis

No museu da UniCesumar há um documento deveras curioso: a carta de autorização dada por um delegado de polícia a uma senhora para que ela pudesse usar calças compridas em suas atividades cotidianas. Isso em janeiro de 1952, aqui pertinho – em Londrina. A portadora, posteriormente, veio residir em Maringá.

Parece incrível, mas a coisa era assim mesmo. Mulher de calças compridas era atentado ao pudor. Só no final da década de 1950 as moças e senhoras começaram a ganhar maior liberdade para sair às ruas em “traje masculino”... e sem necessidade de licença do delegado.

“O tempore, o mores” (ó tempos, ó costumes), bradava o velho Cícero no senado romano. Vale lembrar que de “mores” (“modas”, “costumes” em latim) é que veio a palavra “moral”. Moral então é aquilo que faz parte dos “bons costumes” de um povo numa determinada época.

Tudo o que seja consensualmente aceito como habitual por uma sociedade é “moral”. Se o costume é andar nu, isso significa que a nudez é “moral”. Se o costume é andar com o corpo coberto, a nudez passa a ser “imoral”. Se tanto faz como tanto fez, é “amoral”.

Tá na moda? Tá se usando?... Manda ver. A grande virada dos usos e costumes teve como ponto-marco o ano de 1960. Mas um pouco antes já se notavam sintomas de abertura, com a explosão do rock and roll do Elvis Presley e companhia. Depois veio o biquíni, em seguida entrou na onda a minissaia da Mary Quant. E daí por diante nem mesmo o bom latim do nobre tribuno Marco Túlio Cícero botou mais freio nos “tempores” nem nas “mores”.

O rock, aliás, foi fortemente simbólico no processo de emancipação da mulher. Até então, os casais dançavam abraçados, sempre o homem “guiando” a companheira. A partir do rock ele e ela passaram a dançar separados, cada um guiando a si mesmo.

Em 1952, quando aquela corajosa senhora ousou desfilar em Londrina vestindo calças compridas, muita coisa que hoje causaria espanto era ainda normal, costumeira, habitual, usual, consensual, moral. Por exemplo: namorada só podia ir ao baile ou ao cinema com o namorado se levasse junto um “onze” – um irmãozinho ou irmãzinha para “tomar conta” da moça e evitar eventuais avanços do moço... Nos bailes havia um personagem temível: o “fiscal de salão”. Se um par estivesse dançando muito agarradinho, ele vinha e separava. E se o rapaz resmungasse era posto pra fora.

Velhos “tempores”, velhas “mores”. Mas nos velhos “tempores” era mais fácil acompanhar a evolução dos usos e costumes, porque as “mores” eram duradouras. Foi ao longo da segunda metade do século 20 que as modas destramelaram de vez, passando a mudar muito rapidamente, de modo que as pessoas passaram a ter também que mudar bem rápido o modo de ver e de entender as coisas.

O que aconteceu quando a gente era criança já virou pré-história...

 

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 4-3-2021)

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Como é o céu?

A. A. de Assis

Para quem não crê na eternidade da alma, ao fim do último suspiro a história acaba, e ponto. Segundo, porém, as estatísticas, mais de noventa por cento das pessoas acreditam que a vida prossegue após a despedida do corpo. Eu acredito.

A questão é saber para onde vamos, e como. Cada qual dá um nome: paraíso, glória, infinito, casa do Pai, reino de Deus. Para a maioria, no entanto, pelo menos na cultura ocidental, o nome mais frequente é céu mesmo. Mas como é o céu?

Difícil achar alguém que em algum momento não tenha dado uma paradinha para pensar nisso. A ideia que geralmente se tem é de que o derradeiro minuto de nossa estada neste planetinha tenha como sequência o imediato ou quase imediato ingresso na vida eterna. Cessam as batidas do coração, começam os voos da alma.

Simples assim? Ou haverá uma triagem para selecionar quem vai para onde?

Cá comigo, penso que a população do céu seja imensa. Do jeito que Deus é bom, sempre dará um jeitinho de abrir as portas do paraíso para o máximo de almas. A gente é que tem mania de condenar. A alegria de Deus é perdoar.

Sim, mas por que o céu se chama céu? Em latim céu é “coelum”, que originalmente significava “brilhante” e depois passou a significar “posição superior”, “localização em cima”. Da mesma família é “excelso” (“Gloria in excelsis Deo” – Glória a Deus nas alturas). O oposto é “inferno” (“infernus”), que significa “inferior”. Se interno é o que está inter (dentro) e externo é o que está exter (fora), inferno é o que está infer (abaixo).

Assim, ir para o “infernus” significaria inferiorizar-se, sofrer um rebaixamento, uma degradação; enquanto ir para o “coelum” (céu) corresponderia a ganhar uma promoção – a plena e eterna alegria, a felicidade máxima. Não se trata, portanto, de ir para um determinado lugar no sentido físico. A alma é imaterial.

“Ir para o inferno” – imagino então – seria morrer em estado de profunda tristeza, sentindo a alma pesada, o coração cheio de culpa, a consciência ardendo de medo e remorso, com o risco de passar toda a eternidade em permanente angústia. Almas amarguradas, sofridas, que precisam de muitas orações. Só a misericórdia de Deus pode curá-las, mediante o perdão.

“Ir para o céu”, por sua vez, seria morrer com a alma limpa, levinha, o coração sereno, a consciência em paz, e assim alcançar uma qualidade superior de existência, angelizar-se, passando a viver, espiritualmente, em estado de graça, na plenitude do amor.

Ninguém sabe quem receberá tal bênção. Só Deus sabe. Porém acredito e repito: Deus é generoso demais e certamente levará para junto dele uma multidão de filhos e filhas.

Pode ser que nem todos os eleitos, ao serem chamados, já estejam tão puros de coração a ponto de entrar diretamente no céu; muitos terão talvez de cumprir algum estágio intermediário. Mas a fé é forte e a esperança é enorme.

Quem sabe a gente um dia se encontre lá?...

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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 11-3-2021)

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