“Porque há o direito ao grito. Então eu grito.”
Clarice Lispector
Eudes Moraes
Há algum tempo, sinto vontade de gritar. O que tenho visto, ouvido e sofrido precisa ser exteriorizado de alguma forma, caso contrário manifestações psicossomáticas acontecem. Não grito nas ruas e nem pela janela para não me chamarem de louco. O meu silêncio expressa a minha insatisfação e a minha escrita, às vezes, surge como uma ferramenta catártica.
Mesmo assim, ao escrever, escolho as palavras e bordo as frases como se estivesse sendo vigiado por um olhar frio, calculista, impiedoso e manipulador. Não era assim! Às vezes, me vem à mente uma imagem com sorriso sarcástico e sobrancelhas franzidas como um demônio. Não é à toa que estou finalizando um novo romance, dessa vez, com o título – Baile das tentações. Esse desejo reprimido de gritar, traduz a falta de liberdade e do direito de opinião, ameaçados pela tirania de quem vê crime onde não existe. Acho que tenho que parar de assistir o noticiário da CNN.
Ganhei de presente, um passeio pela Serra Catarinense e ficamos num chalé, um verdadeiro refúgio romântico, no topo da serra, a mais de 1.000 metros do nível do mar. O charme do lugar era contagiante, pela visão que se tem do vale com matas fechadas ao seu redor. Os meus olhos se encantaram com os diversos matizes de verde pelas copas das árvores, como deixaria os renomados pintores de olhos arregalados. Esses chalés são perfeitos para a leitura, a escrita e assistir bons filmes, é uma terapia completa. Ele era cercado pela natureza, gerando uma sensação de tranquilidade e conexão com o infinito. Nas minhas reflexões, por diversas vezes, olhei para a linha do horizonte na busca de drones ou censuradores. Fiquei perplexo, ao assistir a queda de um ditador em 47 segundos!
Muitas vezes, projetei na cara de algum animal, a face de algumas pessoas que tenho repulsa e desafeto. Foi muito engraçado ver imagens de incompetentes, jeitos e trejeitos de cínicos, picaretas e mentirosos. As de corruptos e ladrões foram as piores. Por essa experiência, muitas figuras políticas desfilaram. É óbvio, que fui para esse chalé para curtir a natureza, suas belezas e descansar. Foi o que fiz! Mas antes, deliberadamente, fiz da ausência de censura a minha catarse. Gritei! Sim, como se fosse aquele célebre grito do Tarzan e fui mais preciso, mencionei nomes e os xinguei de todos os palavrões do meu estoque. Vocês não imaginam a importância de gritar e xingar! Meus gritos ecoaram pelo vale e o som se multiplicava pelas curvas do rio e por entre cachoeiras, como se tivesse um amplificador instalado em cada pedra, tronco ou raízes. Pareceu-me, que esse efeito sonoro viajava em ondas, ricocheteava em superfícies duras e pelas paredes rochosas e encostas íngremes das montanhas, como excelentes refletores naturais.
Cumprida essa descarga de adrenalina, senti-me aliviado como se tudo o que estava entalado na minha garganta tivesse voado pelo vale. O resultado foi maravilhoso. Depois disso, o vinho tinto desceu elegante e macio, fui para o fogão e cozinhei, completando a terapia. A libido se tornou intensa e depois dormi profundamente e os sonhos foram coloridos em formato WideScreen com experiência imersiva em dimensões 3 D.
Gritar funciona como uma válvula de escape para descarregar a tensão, a frustração e a ansiedade. Lembrei-me que o psicólogo Arthur Janov, nos anos 60, desenvolveu a sua teoria do grito primal, que apontava a neurose como efeito de traumas emocionais reprimidos. Ele ensinava que o grito pode ajudar a liberar e resolver traumas. Embora, não haja comprovação científica, fiz de conta que era verdade, tal como a famosa expressão italiana – Se non è vero, è ben trovato -, popularizada pelo escritor italiano Giordano Bruno, em sua obra De gli eroici furori, de 1585.
Depois que gritei, lembrei-me da obra de arte do artista norueguês Edvard Munch. A sua tela – O Grito – simboliza a angústia e o desespero existencial humano, inspirada por sua experiência, ao soltar um intenso grito num pôr do sol vermelho-sangue, em Oslo. A sua tela, O grito, tornou-se um ícone do expressionismo e da ansiedade moderna.
O meu grito foi alto, forte, continuo, subindo os sons vocais e brincando com as notas musicais. Foi tão intenso, que não me surpreenderei se ele ecoar pelos vales, túneis e por toda a cadeia montanhosa da Serra do Mar e incentivar quem ouvir ou me lê a fazer o mesmo. Como vivemos um ambiente de medo, onde a liberdade de expressão está ameaçada, o que nos resta é gritar no meio do mato.
“Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio/Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca/Porque metade de mim é o que eu grito, mas outra metade é silêncio…” (Oswaldo Montenegro)
𝐄𝐮𝐝𝐞𝐬 𝐌𝐨𝐫𝐚𝐞𝐬 é 𝐜𝐫𝐨𝐧𝐢𝐬𝐭𝐚, 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐢𝐬𝐭𝐚, 𝐚𝐫𝐭𝐢𝐜𝐮𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚, 𝐩𝐨𝐞𝐭𝐚 𝐞 𝐫𝐨𝐦𝐚𝐧𝐜𝐢𝐬𝐭𝐚.