Papai Noel – Eudes Moraes

Quando eu era pequenino, achava que você demorava muito para chegar e que era assim, porque rodava o mundo distribuindo brinquedos para as crianças pobres. Sonhava que você viria com muitos para mim, mas quando você aparecia nos natais, só as crianças ricas ganhavam. Nunca entendi o porquê das outras não serem lembradas.

Cresci e aprendi que você é uma figura inventada e como sempre, a igreja tinha que estar no meio disso. Alguém usou a figura do bispo São Nicolau. Custei compreender essa coisa de São, aí fui ver que só é chamado assim quem é santo (argh!). Esse é o começo da mentira!

Sabe, papai-noel, meus colegas escritores também têm culpa nisso porque um deles, o Clement C. Moore, em 1822, escreveu o poema “Uma Visita de São Nicolau” e para embelezar a sua peça literária, enfiou no meio imagens de renas e trenós. Escritores sempre viajam2 na maionese! Ora, Nicolau nasceu e foi bispo na Turquia e lá não tem neve, rena e trenós! Pesquisei sobre a aparência desse “São” Nicolau e descobri que ele era muito diferente dessa sua imagem, que você ostenta pelas ruas e nos shoppings centers. O “São” vestia túnica e manto simples e não as roupas ricas e coloridas desse velho barbudo que criaram para você. Diga coisas mais importantes do que tchauzinhos e esses som onomatopaico representado por ho, ho, ho, ho!

Talvez, eu esteja escrevendo esta crônica para me vingar de você.

Custava você me encher as mãos de presentinhos! Agora não quero mais. Ah, preciso lhe falar: a sociedade de todos os tempos, enfiava nas cabeças das crianças que você era o cara e que a gente tinha que escrever cartinhas e pedir para você. Que mentira!

E quem inventou essa sacanagem toda e bem pertinho do meu aniversário? A verdade é que recebo um presente e quem me dá, sempre diz: — Este é pelo teu aniversário, natal e ano novo. Chato isso! Mas vamos lá, hoje é o dia da desmistificação. Em 1800 e bolinhas, o cartunista americano, Thomas Nast, desenhou essa sua figura rechonchuda. Para ficar bem claro, que somos uma sociedade de consumo e que adora ser enganada, essa sua imagem de traje vermelho e barba longa, foi popularizada por quem? Ho, ho, ho, ho!

Em 1930, a Coca-Cola iniciou uma campanha natalina e contratou o ilustrador americano, Haddon Sundblom. A missão era clara: criar um Papai Noel humano, afetuoso e realista, que transmitisse confiança e simpatia. Uai, o “São” Nicolau não tinha essas virtudes? No começo, quando ele inspirou a sua imagem, a igreja viu nele muita generosidade, atos secretos de caridade, especialmente para com os necessitados e crianças.

Ontem, fui assistir a caravana da Coca-Cola descer pela Estrada da Rainha, em Balneário Camboriú. Esse é o cartão de visita da cidade, se a ganância não acabar com essa vista! Agora3 compreendo o porquê da Coca-Cola desfilar pelas ruas das cidades com seus caminhões vermelhos e com um velhinho abanando a mão, quando deveria se abanar para não morrer de calor dentro dessa roupa maluca, que não tem nada a ver com o nosso clima tropical e de verão.

Ah, mas é Natal por causa do nascimento de Jesus, você deve estar tentando justificar! E quem é que inventou que Ele nasceu em 25 de dezembro? Ora bolas, a data exata ninguém sabe, mas no século IV, a igreja (olha aí, a igreja de novo) adotou-a para coincidir com festividades romanas pagãs, como o Natalis Solis Invicti (Aniversário do Sol Invencível), simbolizando Jesus como a “Luzdo Mundo”, que surge na escuridão. E essas musiquinhas natalinas? Sabe, Papai Noel, talvez, você não saiba, mas a religião se imiscuiu na cultura pagã. As primeiras músicas, eram melodias pagãs cantadas durante as celebrações do solstício de inverno e depois elas se transformaram em hinos religiosos. Já passou da hora dos artistas do mundo comporem novas melodias e novas letras, essas já encheram o saco, né!

Mas porque escrevi essa cartinha para você “bom velhinho”?

Resolvi puxar o teu saco e não é à toa!

Bem, você viu que não tem nenhum palavrão. Vontade não faltou.

Ah, quer saber! Escrevi só para encher o teu saco que nunca veio cheio de presentes para mim. Cara, desculpe aí, por estar chateado com você. Na verdade, nem é com você. É com essa sociedade que adora progresso tecnológico, mas não se desenvolve como civilização. Sei que dei uma de estraga prazeres porque as pessoas preferem ser enganadas e usadas pelos marqueteiros. Desculpa aí, tá! O era uma vez dos contos de fadas continuam fazendo sucesso.

Por falar nisso, você tem lido os meus poemas, crônicas e romances? Aposto que não! Ho, ho, ho, ho!

Então, como a minha filha está indo onde você mora, resolvi escrever esta cartinha. Para você não reclamar, por eu estar sendo tão realista, farei um pedido natalino. Posso? Com todo esse4 marketing e pelo tanto de dinheiro que o mundo gasta para se enfeitar por tua causa, é porque você tem poder. Então, com toda a delicadeza do mundo: levante a bunda gorda desse trono majestoso, cheio de capitonês e faça um discurso para o mundo ouvir! Não, não é um discurso qualquer porque deles estamos de saco cheio, mas um com conteúdo arrebatador. Os que os políticos e os atuais líderes mundiais fazem têm sido vazios e pobres.

O mundo precisa de alguém que levante a sua voz com uma mensagem mais emocionante do que aquela que ecoou nas escadas do Lincoln Memorial, em Washington D.C., em 1963, – Eu Tenho um Sonho -, de Martin Luther King; mais forte que a de Abraham Lincoln, no cemitério de Gettysburg, quando exaltou a importância da união e honrou os sacrifícios dos soldados que lutaram pela liberdade e pela igualdade; que seja mais intrépido que o de Theodore Roosevelt, sobre a importância da coragem e da determinação dos que lutam por causas justas; enfático como foi Nelson Mandela ao pregar a reconciliação e a construção de uma sociedade democrática e igualitária. Enfim, Papai Noel, ao lê-los, observe que apesar das diferenças temporais e geográficas, todos esses discursos têm características que os tornam poderosos instrumentos de inspiração e mobilização. E quando você olharpara o Brasil, tenha em mente aquele discurso – “Do or Die”, de 1942, quando Mahatma Gandhi convocou à desobediência civil contra o domínio britânico na Índia, mas por favor, fale do. Não, espera aí, ah, você sabe! Não correrei o risco de responder por crime de opinião.

Agora é com você, carisma você tem!

Esse será o meu presente de Natal e que não seja uma decepcionante expectativa, novamente, própria dos sonhos de noites de verão!

Eudes Moraes é presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

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