A vida é surpreendente. Estou nos Estados Unidos e hoje conheci um cara diferente. O nome dele é Tally. Ele é muito simpático. É um cara alto e magro, desses sujeitos que a gente acha que deve jogar basquete. Ele é de pouca conversa, aliás, de quase nada. Conversei com ele e me contou sobre o trabalho que adora fazer porque não é exaustivo, não tem que ficar pendurado nas escadas, não exige muito de seus olhos e nem há necessidade de concentração. Fiquei curioso em saber mais sobre o seu trabalho.
Ele me explicou que antes dele, as pessoas ficavam horas e horas fazendo levantamento de estoques. No final de cada dia de trabalho, eles se sentiam muito cansados. Por mais que se dedicassem, nas reuniões semanais com a chefia do setor de reabastecimento e preços, sempre havia frustrações. Era impossível ter cem por cento de sucesso nos resultados da operação. Era comum dar diferença no controle de estoque e surgia muitos preços diferentes para produtos idênticos. Nas reuniões mensais, o pau quebrava entre os gerentes porque os números finais de vendas nunca batiam com os números previstos. Perguntei-lhe o que a diretoria fez para resolver esses problemas e como foi o treinamento para alcançar esse elevado nível, qual o segredo para tanta precisão e eficiência na identificação da quantidade necessária de reposição de estoque, quais os produtos etc. Ele me explicou que o resultado tem sido fantástico. Quando ele me contou que hoje consegue auditar cerca de 10.000 itens em apenas 30 minutos, não acreditei. Pensei com meus botões, esse cara não está batendo bem da cabeça ou quem sabe andou batendo com a cabeça em algum lugar que o deixou fora da casinha. Claro, que acredito no poder das ideias e da ação, só tenho dúvida das promessas que a maioria dos coachs brasileiros fazem. E virou moda! Usam a neurociência como varinha mágica para transformar vidas, porém, nunca ouvi dizer que tenham alcançado esse nível de maximização de resultados. Na minha opinião, temos que mudar o Brasil.
Curioso, insisti em saber o porquê dele fazer o seu trabalho, assobiando um trecho de uma música conhecida, mas que não consegui me lembrar qual era. É para avisar que estou por perto, não quero atrapalhar ninguém, vai que alguém não me percebe e tromba comigo!
Vamos lá, meu novo amigo! Quem é você? Perguntei porque já estava desconfiado que ele não existia.
Ora, sou um robô, escaneio prateleiras, freezers e expositores, de tudo o que processo, envio relatório instantaneamente para os gerentes da loja, permitindo a reposição rápida de produtos. As lojas melhoraram seus controles e aumentaram suas vendas.
Tá, desculpe-me, mas isso já sei. Quero saber sobre a sua tecnologia de fabricação, questionei. Quem me desenvolveu foi uma empresa líder em automação e fui programado para ter visão computacional e IA, sou uma plataforma Store Intelligence e converto os dados em insights acionáveis. Sou uma suíte de sensores, incluindo câmeras de profundidade e funciono por inteligência artificial e espacial e por isso, navego sozinho pelos corredores, desviando de carrinhos de compras, clientes e obstáculos, sem precisar de modificações na infraestrutura da loja. Quando a bateria está baixa, retorno automaticamente à base de carregamento. Uso algoritmos de aprendizado de máquina para processar as imagens e os dados dos sensores em tempo real.
Então, fiz a pergunta final, aquela que o leitor está com ela na cabeça: você está retirando empregos de quem precisa, né! Não, ele me respondeu: sou um grande aliado dos funcionários da loja, pois retirei a tarefa manual e repetitiva de contagem, permitindo que eles se concentrem melhor no atendimento aos clientes. E mais, houve sim treinamento e os funcionários que faziam esse trabalho que faço, foram promovidos para outras oportunidades melhores e mais bem remuneradas, que exigem presença e inteligência humana.
De repente, o Tally olhou dentro dos meus olhos e mandou um Where are you from? Respondi que sou brasileiro e depois de assobiar o seu rotineiro fiu, fiu, fiu, ele me disse: ah, amigo, numa pesquisa rápida, vi que está difícil do seu país se livrar da corrupção. O escândalo do INSS e desse banco master é como uma bomba com muitos megatons de potência, também conhecida como pau de merda. Se deixarem abrir a caixa preta, tem muita gente envolvida e rolará cabeças. Tenho certeza que será uma pizza maior do que o Maracanã! O Brasil é um país rico em suas reservas minerais, agronegócio, biodiversidade e potencial energético. Se os dirigentes fossem sérios e, realmente se preocupassem em transformar o país para o bem de todos, seria um país de primeiro mundo.
Ficção à parte, fiquei silente, abaixei a cabeça, pedi licença e fui embora.
Muito prazer, Tally!
𝐄𝐮𝐝𝐞𝐬 𝐌𝐨𝐫𝐚𝐞𝐬 é 𝐜𝐫𝐨𝐧𝐢𝐬𝐭𝐚, 𝐫𝐨𝐦𝐚𝐧𝐜𝐢𝐬𝐭𝐚, 𝐩𝐨𝐞𝐭𝐚 𝐞 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐢𝐬𝐭𝐚.