Chuva de Dinheiro – Eudes Moraes (Crônica)

Vim de Curitiba para Balneário Camboriú. Entre outros motivos, escolhi-a como a minha nova cidade residência porque à época não se via tantos moradores de ruas. Em Curitiba, todas as marquises no centro da cidade estão ocupadas por eles. Não sei hoje, mas no meu tempo, ninguém podia usar telefone celular nas ruas. Em Balneário Camboriú, ainda é possível, mas não espalhem a notícia, senão acabará o sossego.

Numa roda de conversa, depois de algumas cervejas, um amigo contou uma piada que vem se tornando realidade: — Há no Brasil, uma cidade onde chove dinheiro. — Todos os presentes riram. Ninguém acreditou. A piada começou bem e valeu pelas gargalhadas. E ele prosseguiu, insistindo: — Olha só! É tão verdade isso que a cidade ficou famosa. Certo dia, um homem resolveu se mudar para lá. O seu sonho era ficar rico da noite para o dia. Ele mal ajeitou a mudança na casa e resolveu dar uma caminhada pelas ruas. Saiu despretensiosamente, só para tomar um ar fresco. De repente, à sua frente apareceu um enorme pacote de dinheiro. Aproximou-se. Olhou para todos os lados e não viu ninguém. Pensou em pegar, mas como estava cansado da viagem e na cidade chovia dinheiro, deu um chute no pacote e disse para si mesmo, que começaria a trabalhar – catando dinheiro -, a partir do dia seguinte. Andou, andou, andou e pelo caminho encontrou algumas notas voando. Adorou aquela visão! Não pegou nenhuma. Ao regressar, o pacote não estava mais no local e ele pensou: — Normal, né! Alguém, passou depois de mim e pegou o dinheiro. Ele foi para casa, ajeitou a mudança, tomou um banho e dormiu. Sonhou com a fortuna do amanhã. No dia seguinte, levantou bem cedinho. Andou, andou, andou até se cansar e não encontrou nada. Houve silêncio no grupo e a apreensão foi geral. — O que aconteceu? Indagou um dos presentes. — Na noite anterior, que ele não quis pegar dinheiro, tinha ocorrido um assalto e, na fuga da polícia, os bandidos foram jogando dinheiro pelas ruas. (Gargalhadas!)

Não faz muito tempo, em Balneário Camboriú, as redes sociais mostraram uma influencer jogando dinheiro de um helicóptero. Não satisfeita com o resultado desse “marketing”, para movimentar suas redes sociais, alguns dias depois, ela jogou dinheiro também pela janela de um hotel. Ainda não satisfeita, a influenciadora digital anunciou antes, e jogou dinheiro pela janela de seu veículo de luxo, em plena Avenida Atlântica. Em todas essas ações, as redes sociais mostraram vídeos de pessoas correndo e se atropelando.

Há quem diga, que esse tipo de conduta tem prejudicado a imagem da cidade e atraído muitos desocupados. Será?

De vez em sempre no Brasil, a Polícia Federal faz operações com nomes engraçados. Agora, ela fez a operação Barco de Papel, em Balneário Camboriú. Um investigado, arremessou meio milhão de reais pela janela do 30º andar de um prédio de luxo. Essa ocorrência ensejou esta crônica. O montante foi recuperado pela equipe policial. Além do dinheiro, os agentes apreenderam dois veículos de luxo e dois aparelhos celulares. O ato de arremessar a mala é, por si só, uma confissão tácita de que aquele valor não poderia ser explicado ou, pior, de que sua posse representava um risco maior do que a sua perda. Divirto-me com os comentários que as pessoas escrevem embaixo dessas notícias no Instagram. Entre tantos, diverti-me com essas: — Ah, se eu passasse por lá nessa hora! Iria falar que Deus ouviu minhas orações e mandou dinheiro do céu.

Outro: — Se o dinheiro fosse limpo não precisava sujá-lo, era tudo nota novinha de 200,00.

E mais essas: — Se é dinheiro público é do povo.

— Quem pegar a mala e sair correndo terá sete anos de perdão.

A CPMI do INSS, revela que uma das supostamente envolvidas nas fraudes, comprou um apartamento de alto luxo, no valor de 28 milhões de reais, na Dubai Brasileira. Quando pronto, esse prédio terá 550 metros de altura, distribuídos em 157 pavimentos. O empreendimento contará com 228 apartamentos, e o valor de R$ 28 milhões é o preço de entrada das unidades. Nesse edifício em construção, tido como o maior do mundo, carros de luxo subirão nas alturas através de elevadores especiais e serão estacionados como verdadeiras joias, dentro das chamadas mansões suspensas.

Num país, onde a maioria da população luta para fechar o mês com o salário mínimo, ver meio milhão de reais voando nos céus é um tapa na cara do povo. Tudo indica, que no mar onde navega esse Barco de Papel, tem muito mais. É só apertar o cerco que eles contam tudo e se entregam. Será como um balaio de caranguejos, pegou um, pega todos. Vamos torcer pelas delações premiadas, não que deem em alguma coisa em benefício popular, mas será diversão na certa. O Sistema de Poder, sempre acreditou que para o povo basta “panem et circenses” (pão e circo). Essa é uma expressão latina do poeta Décimo Júnio Juvenal, que descreveu a política romana de controlar o povo com comida subsidiada (bolsa família) e entretenimento (como no Coliseu), através do carnaval e outras festas. O objetivo sempre foi o de distrair e desviar a atenção do povo dos problemas sociais e políticos.

Morro de rir e não acho graça!

Nesse ritmo da podridão no poder e de tantos escândalos, talvez, numa das próximas operações da Polícia Federal, não será surpresa, se no futuro, ao invés de malas de dinheiro voando nos céus, haja chuvas de carros de luxo.

Eudes Moraes – é escritor, autor dos livros Enigmas da paixão (romance), Nas dobras do infinito (poemas), No divã com Deus (ensaio crítico), Multiverso (poemas), Baile das tentações (romance) e Laços de sangue (romance). É cronista, articulista, contista e Professor de Literatura na Escola de Criação Literária da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

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