Assim como o próprio título sugere algo que ecoa e reverbera, o enredo do filme também parece acontecer “entre aspas”, como se fosse uma versão filtrada, narrada à distância, mais interpretada do que vivida em sua crueldade original.
Poucos romances do século XIX permanecem tão perturbadores quanto O Morro dos Ventos Uivantes. Publicado em 1847, o livro de Emily Brontë não é uma história de amor, é uma anatomia da obsessão. Nada é romantizado. O amor ali é força destrutiva, pulsão de vingança, desejo de posse e dor irreparável.
A recente adaptação cinematográfica de 2026, no entanto, opta por outro caminho: suaviza, estetiza e reorganiza a narrativa para aproximá-la de um drama romântico convencional. O resultado é visualmente belo, emocionalmente acessível, mas ontologicamente distinto da obra original.
Fora das muralhas, a fortaleza.
Dentro, o abismo. A metáfora sintetiza a diferença crucial entre o romance e o filme. No livro de O Morro dos Ventos Uivantes, os castelos, tanto o Morro quanto a Granja, funcionam como fortalezas sociais. São estruturas que sustentam hierarquias, definem pertencimentos e delimitam quem pode ou não atravessar seus portões. Do lado de fora, ergue-se a aparência de ordem, estabilidade e tradição. Dentro, porém, pulsa o abismo das paixões indomáveis, da violência psicológica, da obsessão e da vingança.
Emily Brontë constrói um universo em que a arquitetura simboliza contenção cultural, enquanto as almas de seus personagens vivem em estado de desmedida. Heathcliff carrega dentro de si o abismo da exclusão e do ressentimento; Catherine, o abismo da contradição entre desejo e convenção. As muralhas não os protegem, aprisionam-nos.
No filme, entretanto, as muralhas permanecem, mas o abismo é atenuado. A fortaleza estética, paisagens deslumbrantes, figurinos impecáveis, enquadramentos elegantes, ganham protagonismo. O interior, que no romance é vertigem e brutalidade, transformase em melancolia romântica. O abismo deixa de ser ameaça ontológica e torna-se dor sentimental.
No livro, o leitor sente que as paredes mal contêm a tempestade interior dos personagens. No filme, as paredes parecem emoldurar a tragédia, tornando-a contemplativa. O que era força destrutiva torna-se beleza dramática.
Assim, a tensão entre livro e cinema pode ser resumida no dilema: fora das muralhas, vemos a fortaleza que o filme exibe; dentro, permanece o abismo que apenas o romance ousa explorar até o fim.
Heathcliff: do anti-herói cruel ao herói romântico
No romance, Heathcliff é uma figura complexa, perturbadora e, muitas vezes, difícil de amar. Sua formação é marcada por humilhação, exclusão racial e inferiorização social. Ele retorna à narrativa já amadurecido, tendo sido mentor de si mesmo. Sua viagem é simultaneamente reafirmação cultural e reorientação identitária.
Embora sua cultura de origem tenha sido apagada no plano prático, ela permanece inscrita em seu corpo, sobretudo na cor de sua pele, que o marca como outro, como pertencente a uma raça e classe consideradas inferiores no contexto inglês. Sua rebelião contra o status quo começa ainda na infância, quando amadurece sua consciência de exclusão.
No filme, porém, grande parte dessa crueldade calculada e dessa dimensão social é atenuada, vivenciado por ator de raça branca. Heathcliff transforma-se quase em um herói romântico incompreendido. Sua vingança perde densidade moral e histórica; sua violência é diluída em sofrimento amoroso. O que no livro é projeto consciente de destruição torna-se, na tela, consequência trágica de um coração partido.
Catherine: da contradição trágica à delicadeza compreensível
Catherine, no romance, é egoísta, contraditória, emocionalmente excessiva. Sua formação é profundamente marcada por conflitos culturais e ontológicos.
Ainda jovem, afirma, para si e para o visitante, que ela e Heathcliff pertencem à plebe. Contudo, na primeira viagem à Granja dos Linton, Catherine passa por um processo de formação em inglesidade, seduzida pelo glamour e pela promessa de ascensão social. Trata-se de uma verdadeira reorientação cultural e ontológica.
Já na segunda viagem, agora como senhora da propriedade, o retorno de Heathcliff provoca nela uma reafirmação de sua identidade anterior. É nesse momento que percebe o quanto se afastara de seu “eu sou”. Há um retorno à antiga forma de pensar, mas não uma ruptura efetiva. Catherine não consegue escolher: manter o casamento com Edgar ou fugir com Heathcliff. Sua incapacidade de decisão a leva a agir contra si mesma, em um processo que hoje poderíamos chamar de depressão profunda.
Sua loucura não é mero descontrole romântico, é resposta psicossomática às condições culturais disponíveis a uma mulher inglesa de sua época. Catherine é um personagem problemático: sua alma é maior que o destino que lhe está reservado. Ela precisa aceitar o estilo de vida imposto para que o turbilhão interior se acalme, mas fazê-lo significa mutilar a própria essência.
Consciente de que era igual a Heathcliff : “Nelly, eu sou Heathcliff!”. E temendo perder o controle sobre si enquanto mulher, Catherine escolhe casar-se com Edgar. Para não se perder, foge de si mesma. Esse é o ápice de sua formação. Heathcliff escuta tudo. Antes, via-se como espelho negativo nos outros, agora compreende que Catherine fora a única pessoa em quem realmente se reconhecera. Ao perceber que esse vínculo está perdido, parte, foge para evitar a dor de perder o único porto seguro que conheceu.
Esse ponto de ruptura lança ambos prematuramente na vida adulta. Catherine acelera seu amadurecimento de forma abrupta e traiçoeira em relação às próprias convicções. Heathcliff amadurece de modo mais silencioso, usando máscaras sociais para se posicionar diante da nova percepção da realidade. O amor permanece – não transformado, mas submerso, como um iceberg oculto em águas profundas e escuras.
No filme, entretanto, Catherine surge delicada, compreensível, quase vítima das circunstâncias. Perdem-se as camadas de ambição social, a consciência racial implícita, o desejo de ascender por meio do casamento. Sua decisão de casar-se com Edgar aparece como erro sentimental, não como escolha cultural estratégica. A complexidade de sua crise identitária se dilui em fragilidade romântica.
Amor, cultura e impossibilidade
O status quo representado pelos Linton seduz e repele simultaneamente Catherine e Heathcliff. Ambos são seres de essência livre, mas atravessados pelas amarras culturais da Inglaterra do período.
Catherine deseja existir como Heathcliff: sem genealogia definida, sem passado limitador. Heathcliff, paradoxalmente, busca inserir-se no sistema de regras da burguesia da época, sistema que o rejeita pela marca racial inscrita em sua aparência. Ela é impedida pelo gênero; ele, pela raça e pela classe.
A tragédia do casal não reside apenas no amor impossível, mas na impossibilidade de conciliar identidade e pertencimento.
O filme, ao priorizar a estética romântica, enfraquece essa dimensão estrutural. A tensão cultural, racial e ontológica transforma-se em drama amoroso. A violência simbólica do contexto histórico cede lugar a paisagens belas e olhares intensos.
A realidade literária concebida por Emily Bronte em 1847 exige do leitor não apenas atenção, mas resistência emocional. O Morro dos Ventos Uivantes não é uma obra que se percorre com leveza: ela demanda espírito forte e certa elevação de alma para sustentar a densidade de seus personagens e a brutalidade do enredo que os envolve.
Brontë não oferece consolo. Seus protagonistas são atravessados por contradições violentas, impulsos destrutivos e escolhas moralmente desconcertantes. Heathcliff não busca redenção; Catherine não encontra harmonia; o amor não salva, consome. O leitor é convocado a habitar esse território emocional extremo sem o amparo de uma narrativa que suavize arestas.
Há uma crueza quase física na construção psicológica das personagens. A autora expõe ressentimentos, humilhações e desejos de ascensão social com uma franqueza desconfortável. Nada é decorativo. Cada gesto carrega implicações sociais, raciais e culturais que ampliam a tensão do drama.
Por isso, enfrentar essa obra implica aceitar a ausência de romantização. É preciso suportar o desconforto de reconhecer que ali o amor é obsessão, que a formação dos sujeitos passa pela dor e que a sociedade molda, e muitas vezes mutila, as identidades.
Ler O Morro dos Ventos Uivantes é atravessar uma tempestade sem promessa de abrigo. E talvez seja justamente essa honestidade brutal que torna o romance tão poderoso e tão difícil, tão cruel e tão sombrio e, acima de tudo, profundamente anti-romântico. Ali o amor não redime, corrói. Ele se manifesta como obsessão, desejo de posse e sede de vingança. Seus personagens não pedem simpatia: são falhos, contraditórios e moralmente inquietantes. A narrativa não suaviza suas arestas; ao contrário, expõe a violência emocional que os constitui.
Já a adaptação cinematográfica de 2026, opta por outro registro. Bela, estilizada e emocionalmente envolvente, ela romantiza aquilo que, no livro, é desconforto. A fúria converte-se em melancolia; a vingança torna-se sofrimento amoroso; o conflito cultural e social se dilui em desencontro sentimental. O que em Brontë é abismo, no filme tornase atmosfera.
Se o romance nos obriga a encarar a brutalidade das paixões humanas sem mediação, o filme nos permite contemplá-las à distância segura da estética, como quem observa a tempestade por trás de uma janela bem fechada.
Ambos têm valor. Mas não contam a mesma história e, sobretudo, não exigem o mesmo tipo de coragem de quem os atravessa.
Por Tatiana Bissoni Vhoss Acadêmica da Academia de Letras de Balneário Camboriú, Cadeira 8, Patronato de Cecília Meireles