NOITE DE SURPRESAS – Eudes Moraes

Moradores deixaram os trabalhos e se recolheram em suas casas. O entardecer, com pôr do sol multicolorido, era uma pintura deslumbrante. A noite de verão estava quente. Naquela noite, em algumas cidades, vultos estranhos foram vistos furtivamente, nos quintais. A sensação  era de zumbis que passavam de um lado para outro. Barulhos foram ouvidos nos arredores. Cada vizinho teve essa experiência, sem saber que, quase ao mesmo tempo, os demais moradores de cidades próximas, tiveram as mesmas sensações.

No dia seguinte, a notícia tomou conta das conversas e os canais de televisão se revezavam no Black News e exibiam imagens de vultos que se deslocavam na escuridão. Não demorou muito e em entrevistas, as pessoas davam versões diferentes sobre o mistério.

Os turistas fervilhavam pelos parques temáticos e como estavam em férias, se desligaram do mundo. A boca a boca, ainda é um transmissor de notícias. Mas eles não estavam nem aí! Na próxima noite, os moradores ficaram atentos, na expectativa que tudo se repetiria. Alguns moradores deixaram  armas no jeito, prontas para manuseio e livre exercício da defesa da família e propriedade. A ansiedade ganhou proporções. Todos dormiram tarde, o tempo passou e nada aconteceu.

No dia seguinte, o conteúdo das conversas foi sobre a tranquilidade da noite anterior. Nenhuma ocorrência tinha sido registrada. O suspense gerava indagações. O que estaria por trás desses mistérios?

O chefe da redação do principal  jornal, reuniu todos os repórteres. Sensibilizou-os da importância de uma matéria com fotos e relatos. Desafiou-os à investigação. — Talvez, estejamos diante de um furo de reportagem. Todos concordaram. Assim, eles foram distribuídos para diversos cantos da região do estado, por onde as ocorrências chamaram mais a atenção. Um jornalista de nome Lucas, foi o mais interessado: — Talvez, essa seja a minha oportunidade de conseguir uma boa história, pensou! Naquela noite, ele se organizou para a aventura. De posse da mochila, reuniu por perto uma lanterna, máquina fotográfica com lentes potentes, próprias para fotojornalismo, que permitem fotografar em situações de pouca luz. Passou a mão no binóculo e se lembrou que deveria levar o gravador, com capacidade melhor que o telefone celular e, na dúvida, pegou uma bússola. — Sei lá o que encontrarei pela frente, balbuciou! O conteúdo gravado servirá como prova, se eu conseguir uma entrevista.

O repórter estava pronto para sair de casa, quando ouviu um Break News: eventos estranhos assustam moradores de diversas localidades. Os comentaristas se esmeravam nas tentativas de encontrar respostas. Ele examinou todos os canais e a notícia era a mesma. De repente, um canal abriu manchete para acontecimentos estranhos de animais que faziam coisas engraçadas pelas ruas.

Isso o ajudou na escolha de um local para a sua investigação. Rumou o carro para onde o corpo de bombeiro e policiais estavam se dirigindo. Acelerou o quanto pode para chegar junto com os policiais. Conseguiu. Os policiais estavam isolando o perímetro de segurança com fitas de não ultrapassagem. Lucas se  aproximou e o policial fez a identificação e a revista. — Quem é você, perguntou o policial. — Sou jornalista e estou investigando essas ocorrências, aqui está meu documento e carteira de repórter, esclareceu. Liberado o acesso, ele estava dando os primeiros passos, quando ouviu uma voz feminina gritando: — Meu deus! E estranhamente, todos ouviram gargalhadas. — Gente, o que está acontecendo aqui, pensou!

Nisso, o seu telefone celular tocou, era um dos seus colegas da redação do jornal, informando de outros acontecimentos semelhantes na cidade. Inconformado com a situação, Lucas tomou uma nova decisão. Sua cabeça trabalhava em velocidade. — Tenho uma suspeita que merece ser perseguida. Imaginou que o segredo poderia estar numa das florestas da cidade. — Qual delas? Consultou os seus botões. Por um momento, ficou em dúvida qual das principais reservas florestais exploraria. Decidiu ousar e escolheu a maior floresta, próximo de St. Johns River.

Essa reserva, é frequentemente visitada para observação da fauna silvestre dos animais que a habitam. Durante o percurso, fez contato com o seu amigo, chefe do departamento de controle dos animais. Chegando, estacionou o carro no local. O parque estava fechando porque abre ao amanhecer e fecha ao anoitecer. Rapidamente, ele calçou a bota de caminhada que estava no porta malas e de posse da mochila, foi em direção do seu amigo, que acabara de chegar. Lucas explicou rapidamente o que estava acontecendo, a importância da investigação e do apoio do departamento para não cometer penalidades e ter que enfrentar a corte. Ambos, seguiram por uma trilha que passa por áreas de pântano, perto do rio St. Johns. Lucas sabia do perigo de caminhar à noite. Não é à-toa que o departamento orienta e proíbe o acesso após o entardecer. Lucas estava movido por um forte sentimento de conseguir uma bela história.

Com esse propósito, ambos, percorreram a trilha pelo dique estreito e sombreado e atravessaram por sobre o pântano. O caminho foi ficando difícil e exigia atenção. Sem atalhos, alcançaram o último passadiço sobre o pântano e se dirigiram para uma floresta de ciprestes, atravessaram um brejo de salgueiros e chegaram na plataforma de observação. Na medida em que caminhavam, ouviam barulhos como se  houvesse uma festa na mata. Não ouviram vozes humanas, a sensação era da presença de seres que conversavam entre si e dançavam festejando alguma coisa. Havia mistura de alegria e gargalhadas. Aproximaram-se. Os sons onomatopaicos de grrr, roa e brum-brum, rugidos próprios dos ursos pretos, eram mais do que rosnados ou grunhidos. Lucas e seu amigo ficaram impressionados com o que viram e ouviram – era uma conferência de ursos. O repórter queria muito entender o que eles falavam. Logo, teve uma ideia. — Será que eu consigo Internet por aqui, cochichou no ouvido do seu amigo. — Acho que sim, o parque não tem, mas com muita sorte, talvez, você consiga de algum morador desses condomínios residenciais, dentro do parque. Na velocidade de um raio, Lucas conseguiu se conectar num Wi Fi e pesquisou no Google sobre um aplicativo de conversão de sons de animais em palavras. Baixou-o imediatamente. O App trabalhava por Inteligência Artificial. Qual não foi a surpresa, ao ouvirem o conteúdo dessa conferência: — Há, há, há, Fofão, o líder dos ursos, deu uma gargalhada. Foi muito legal a nossa experiência. Eu sabia que vocês se divertiriam. — Há, há, há, falou a Ursula, sua parceira, enquanto lambia as suas ursinhas. As crianças gostaram muito!

— Foi muito melhor e mais divertido do que derrubar latões de lixos,  acrescentou o urso Teddy.

— Verdade, gargalhou Orson, o urso grandalhão! E acrescentou: É muito chato ter que revirar os latões, as pessoas nos olham com cara feia e só não nos agridem porque têm medo.

Lucas e seu amigo, nem respiravam, com receio de serem descobertos. Como era uma noite de luar, não acenderam a lanterna. Viam e assistiam tudo com surpresa e espanto.

A conferência dos ursos foi marcada por muita amizade e diversão. O ursão Fofão, líder da festa, propôs que cada urso contasse a sua proeza. — De acordo com o que combinamos, cada um contará o que fez, principalmente, sobre a cara dos humanos. — Será muito engraçado, rosnou a ursa Balu.

— Contem, contem, contem, repetiam as duas ursinhas, Lelê e Lelé. Adoramos as historinhas dos ursos!

— Vamos começar, disse Fofão, da direita para a esquerda, no sentido do relógio. Antes, quero aplaudi-los pela estratégia na primeira noite. Era bem isso mesmo! Só os nossos vultos e barulhos diferentes das outras noites. Conseguimos chamar a atenção dos moradores, da imprensa e das autoridades.

— Pompom, você começa. 

— Tá bom! Entrei no quintal de uma moradora. Entrei caminhando tranquilamente por uma avenida movimentada. Dei uns passos de danças. Eu sabia que isso causaria surpresas e que movimentaria a região. Percebi que muitas pessoas me fotografassem e filmassem. Uma moradora postou nas redes sociais e viralizou. Assisti ao vídeo e vocês me verão andando próximo às residências e comércios da região, o que gerou alerta entre os moradores. Vocês precisavam ver a cara das pessoas, foi muito divertido! Todos os ursos riram!

— Agora é a sua vez, Teddy.

— Ah, sim, concordou o urso Teddy! Eu já fui outras vezes nessa casa. Sabia que a moradora estava acostumada com a presença de outros animais, mas como o nosso trato era o de causar, aprontei bem legal! Entrei bem de mansinho e resolvi dar uma relaxada na piscina infantil. Primeiro coloquei a grande pata na água, me inclinei e deitei. O que não estava previsto é que relaxei e cochilei. Acordei assustado com o som dos seus netos se aproximando da garagem. Antes que chamassem o pessoal do controle, sai correndo e fugi. Nesse episódio, fiquei emocionado ao ver o quanto aquela mulher se encantou comigo e com essa audácia. Na entrevista, ela declarou que eu parecia muito contente e refrescado. Contou que eu estava dormindo tão bonitinho, que ela colocou uma cadeira na porta para me observar. Consta que dormi quase uma hora. Que estava bom, estava!

— Orson é sua vez, falou o líder.

— Mergulhei na hidromassagem e, depois, fui para uma área de descanso, onde me deitei no sofá. Ajeitei meu corpo por entre as almofadas. Os humanos têm muito conforto. Que coisa boa!

— Mizar, conte-nos a sua, pediu o Fofão.

— Ah, peguei carona numa caminhonete, o motorista não percebeu e fui tomar um gostoso banho de mar. Virei atração até para os barcos de luxo. Vocês precisavam ver a cara dos banhistas!

Depois de sucessivos relatos dos diversos urso pretos reunidos, Fofão concluiu essa fase engraçada contando o que fez. Para começar, não se aquentou e deu uma gostosa gargalhada.

— Bem, vocês estão lembrados, que o nosso objetivo era chamar a atenção das autoridades. Atravessei o pátio de um jornal e me escondi por detrás dos arbustos. Num momento de descuido, pulei a janela da redação. Fiz caretas e mostrei a bunda. Foi um deus nos acuda! (gargalhadas). Dei um tempo para que fizessem fotos e filmassem. Pulei a janela e fui embora. Essa foi a pista que dei para que os repórteres desvendassem o mistério. Espero que algum repórter tenha entendido o recado!

Todos aplaudiram!

— Amigos ursos, disse Fofão: esperamos, que os humanos entendam que os intrusos não somos nós, são eles que invadiram o nosso habitat natural. As autoridades, ainda não compreenderam o porquê dos barulhos nas lixeiras. É a nossa forma de protesto. Como não gostamos de comida humana, não queremos um programa social de alimentos para ursos. Ele não votaram essa lei, achando que nos punem. Que piada! Ora, bolas, quando se darão conta que somos animais onívoros? A nossa dieta é composta por vegetais, frutas, bagas, nozes, raízes, cogumelos e brotos. Claro, que alguns insetos, peixes e, para fazer jus às histórias de quadrinhos dos humanos, um pote de mel sempre vai bem! A proibição de alimentar ursos porque faz com que percamos o medo das pessoas, é uma piada. Lixo humano ninguém merece!

O urso Panda pediu a palavra.

— Desculpe-me, Fofão! Mas estou muito preocupado com essa aprovação atual do governo, autorizando caçadas aos ursos. Isso não está certo, finalizou.

— Sim, amigo, é um absurdo! Eles são hipócritas. Presenteiam suas crianças com ursinhos de pelúcia, simbolizando carinho e amor, mas querem o nosso extermínio. Enquanto, os humanos não se despertarem para a realidade, continuaremos a invadir quintais e as lixeiras. É o nosso jeito de protestar. Espero que os últimos acontecimentos sirvam de reflexão!

Os ursos pretos se abraçaram e riram gostosamente.

O repórter Lucas e o chefe do departamento de controle dos animais, saíram caladinhos.

 𝗘𝘂𝗱𝗲𝘀 𝗠𝗼𝗿𝗮𝗲𝘀 – é 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗶𝘁𝗼𝗿, 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗿 𝗱𝗼𝘀 𝗹𝗶𝘃𝗿𝗼𝘀 𝗘𝗻𝗶𝗴𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗮 𝗽𝗮𝗶𝘅ã𝗼 (𝗿𝗼𝗺𝗮𝗻𝗰𝗲), 𝗡𝗮𝘀 𝗱𝗼𝗯𝗿𝗮𝘀 𝗱𝗼 𝗶𝗻𝗳𝗶𝗻𝗶𝘁𝗼 (𝗽𝗼𝗲𝗺𝗮𝘀), 𝗡𝗼 𝗱𝗶𝘃ã 𝗰𝗼𝗺 𝗗𝗲𝘂𝘀 (𝗲𝗻𝘀𝗮𝗶𝗼 𝗰𝗿í𝘁𝗶𝗰𝗼), 𝗠𝘂𝗹𝘁𝗶𝘃𝗲𝗿𝘀𝗼 (𝗽𝗼𝗲𝗺𝗮𝘀) 𝗲 𝗕𝗮𝗶𝗹𝗲 𝗱𝗮𝘀 𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮çõ𝗲𝘀 (𝗿𝗼𝗺𝗮𝗻𝗰𝗲). É 𝗰𝗿𝗼𝗻𝗶𝘀𝘁𝗮, 𝗮𝗿𝘁𝗶𝗰𝘂𝗹𝗶𝘀𝘁𝗮 𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝘀𝘁𝗮.

plugins premium WordPress