Dormi pensando no conteúdo da reunião do dia seguinte. Criei estratégias para envolver o interlocutor nos projetos da Academia de Letras: — eu direi que não fui pedir nada e sim oferecer. Que a universidade precisa vender cursos e os coordenadores têm extensões universitárias a cumprir porque é importante a reconexão com a sociedade. Que a Academia é uma tribuna importante, onde boas parcerias acrescentam para ambas. Nesse embalo, acordei muito cedo e me vesti para a reunião. Um paletó sempre cai bem.
Como de costume, programei o endereço no Waze. O trânsito não estava colaborando com o tempo de chegada. Com o atalho proposto aproximei-me do local com antecipação de meia-hora. — Chegando ao seu destino, anunciou o Waze. Senti um a sensação gostosa de estar chegando no horário e com tempo para reler os projetos e ações. A rua foi se estreitando e o Waze nada dizia. Sabe aquela situação em que ele demora para definir a você tem que tomar uma decisão em cima do laço. Pois é, me ferrei! Na dúvida ou talvez por descuido, segui em frente imaginando encontrar a 2 entrada a poucos metros e quando me dei conta, cai na rodovia.
Quando percebi estava no meio de um engarrafamento e não encontrava como sair dele. Olhei no painel e ele informava que o retorno mais próximo estava a seis quilômetros de distância. — Não acredito que isso esteja acontecendo comigo! O painel mostrava que, dependendo do engarrafamento, ainda assim, eu chegaria no horário marcado. Tudo em 28 minutos. Eu suava gelado. Como tudo estava parado, escrevi uma mensagem para os meus colegas, que também estavam indo: — Errei o caminho e caí na rodovia engarrafada, estou perdido mas estou fazendo tudo para chegar a tempo. Confesso que o coração disparou, a respiração ficou curta, os músculos dos ombros e da mandíbula se tencionaram. Fui acometido pela ansiedade e pela impaciência.
Sem dúvida, o corpo liberou adrenalina e cortisol. Um bom teste para o coração! Senti-me frustrado e pela mente passava de tudo um pouco. Por mais que tentasse disfarçar e criar um clima de que tudo estava bem e que daria tudo certo, o medo e a vergonha de chegar atrasado ao compromisso fazia-me derreter por dentro, O pescoço e as mãos no volante estavam rígidos. Para acalmar-me recorri às preces e tive uma conversa boa com Deus, para que Ele me ajudasse a sair dessa. Avançar na BR 101, no sentido norte, nesse trecho de Balneário Camboriú até Navegantes é preciso ter fé e é um caso de polícia! Em doze quilômetros desperdiçados, vi de tudo na estrada. Todos querem chegar logo e abusam nos poucos
espaços. — Mantenha-se na faixa da direita e entre na saída 132, disse o Waze.
Num misto de alegria e angustia, desacelerei o carro segui até o viaduto, que me levaria à avenida leste e ao meu destino. Olhei no relógio do carro – eu estava chegando no horário da reunião. É inacreditável, consegui, pensei! Ávido para entrar na universidade, não encontrava vaga no estacionamento. A camisa sob o paletó estava molhada. Olhei para todos os lados para tentar ver meus colegas. Nada. Subi a escadaria, imaginando encontrá-los na recepção e nada. Eles devem estar atrasados, pensei! Dirigi-me à secretária do reitor. Ela perguntou o meu nome e correu os olhos 3 pela agenda. Ergueu a cabeça e me disse: doutor, a sua reunião será
amanhã.
Deus deve ter rido de mim!
Eudes Moraes é professor na Escola de Criação Literária e Presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú – ALBC.