CONFESSIONÁRIO – Eudes Moraes

Sem programação, botamos o carro na estrada. Não conhecia Santo Antônio de Lisboa, embora tivesse ouvido que esse cantinho guarda a alma antiga da *Ilha da Magia”. Ha quem diga que as casinhas coloridas lembram os Açores. A vila sussurra histórias de pescadores.

Os ventos do mar nos levaram para outras belezas, onde _“o vento sul sopra poesia e o mar beija as pedras com força e bravura”. O mar aberto da Joaquina lança a alma pela imensidão e os nossos olhos curiosos não resistiram o encanto das dunas, como se beduínos desfilassem em nosso imaginário.

Estamos ainda na primavera e conseguir uma vaga em pousada foi um ato de sorte.

Hoje é domingo, dia de confissão.

Estamos no charmoso bairro de Coqueiros da “Ilha da Magia”, a mais bela vista da Baia Sul. na orla de Itaguaçu. As grandiosas pedras compõem a sinfonia do silêncio adornando a imensidão e a minha alma se eleva até as dobras do infinito.

Ontem foi o Dia das Bruxas e, por coincidência, hoje vemos as bruxas que foram transformadas em pedras. Conta a lenda que as bruxas da região resolveram dar uma grande festa à beira-mar e diversas criaturas foram convidadas, menos uma – o diabo. Descobrindo a festa, o ele apareceu enfurecido e lançou uma maldição: transformou as bruxas e os convidados em enormes pedras que repousam nessas águas.

Domingo – dia de confissões!

Sobre uma das pedras, vi uma pomposa gaivota. Uma linda imagem que me remeteu à infância. Da lembrança penitencio-me. Talvez, por essa e outras fui internado num seminário. Não era um pecado grave, ninguém me censurou. Eu era um menino bonzinho e obediente, mas não resistia a tentação do uso do estilingue e não errava uma pedrada num pássaro indefeso. A atiradeira era uma arma artesanal feita com uma forquilha de madeira, elástico e um pedaço de couro onde a pequenina pedra era agasalhada. Essa prática era comum entre os meninos à época. Diante da beleza do alvo, embora arrependido, não pude evitar a lembrança. Desse cenário poético, fiz meu confessionário, do misticismo a minha contemplação e da água salgada a expiação para lavar as marcas do passado.

Errare humanum est, confiteri divinum. (Errar é humano, confessar é divino)

Eudes Moraes é professor de literatura na Escola de Criação literária e presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

plugins premium WordPress