O carteiro podia ter perdido – Eudes Moraes

Sou do tempo das cartas. Estudei em seminário e o único contato que eu tinha com a minha mãe era através delas. Lembro-me como se fosse hoje, era festa quando um colega chegava do correio distribuindo cartas. O momento era de forte emoção! Como minha mãe não sabia escrever, ela ditava seus sentimentos para que alguém escrevesse para ela: — “Meu filho, escrevo para dar as minhas notícias e também receber as suas” …

O tempo passou! As cartas deram lugar para os correios eletrônicos e outros aplicativos. Às vezes, brinco no prédio que ninguém mais me escreve cartas!

Dia desses, ao passar pelo escaninho de correio, na portaria do prédio, recebi-a. Sempre que vejo uma, sinto saudades. As antigas tinham um gostinho de quero mais porque chegavam cheia de emoções e faziam o coração acelerar. Antes de abrir o envelope, as cartas tinham um significado especial: no envelope constava o nome, o endereço e a carta trazia a certeza de que alguém, em algum lugar, sentou-se em silêncio para pensar no outro. A cartinha escrita à mão expressava o estado de espírito de quem derramava a alma, “através das mal traçadas linhas”. Os selos colados eram bonitos e enfeitavam os álbuns dos colecionadores. Com ansiedade, a gente abria o envelope para ler o segredo que ele guardava durante tantos dias de viagem. E quando eram cartinhas de amor? Ah, os seminaristas amavam por cartas! Elas resgatavam as memórias do último beijo.

Mas o mundo mudou e hoje até amor é feito pelo WhatsApp!

As cartinhas mágicas desapareceram. Hoje é uma chatice passar pelo escaninho de correspondências. Quando não recebemos boletos, há propagandas e multas de trânsito. Nessa semana, fui surpreendido. O envelope estava lacrado e constava o meu nome e endereço. Não tinha selos e sim uma chancela impressa com o número de um convênio. Do lado esquerdo, aparecia uma logomarca, dessas que causa arrepios. Não rasquei o envelope porque a mensagem estava impressa no outro lado. A cartinha estava assinada por um delegado. Não descreverei os sentimentos que tomaram conta de mim. Coloque-se no meu lugar. Ninguém gosta de receber esse tipo de carta. Pela nossa mente passa um filme, todos os pecados desfilam na passarela do medo. Essa cartinha estragou o meu dia. Perdi a graça. Eu precisava saber do que se tratava. Recorri ao meu procurador e enviei-lhe uma mensagem em busca de respostas. Angustiado, fiquei observando o momento em que aparecia aqueles dois risquinhos, que mostram a confirmação de leitura. Ele demorou para ler! Esse tipo de ansiedade, diante de uma carta de delegado, é diferente dos bons tempos das antigas cartinhas, agora ela corrói a alma como uma mensagem do inferno. A preocupação, palavra que é formada pelo prefixo pré, mais o sufixo ocupação, significa que a gente antecipa o pior resultado. Dependendo, essa pré + ocupação é paralisante.

— O que fiz desta vez? Indaguei para os meus botões. Sempre sou cuidadoso e tenho uma vida discreta e cidadã, respondi para mim mesmo.

Como o meu procurador não respondia, telefonei. As chamadas caiam na caixa postal. Anoiteceu! O manto negro piorou a situação. Dormi mal. A sensação de medo e raiva gruda mais do que merda na tamanca. Todos os espaços da minha mente foram ocupados por essa cartinha desgraçada. No dia seguinte, mal-humorado, com sensação de noite mal dormida e com os meus órgãos internos em frangalhos, telefonei novamente.

— Alô! Você viu pra mim sobre aquela carta?

— Ah, sim. Não se preocupe resolverei por aqui. Você não é o único. Milhares de pessoas estão recebendo essa cartinha da Receita Federal. O Brasil não tem controle de gastos, o Cara gasta muito e se deleita com o dinheiro do povo. O país está endividado e a figura do leão foi criada exatamente para intimidar os contribuintes.

Confesso: odiei esse tipo de carta!

Eudes Moraes é professor de literatura e presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

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