Tchac, tchac, tchac, batia chocamente o enxadão. Mãos trêmulas o segurava. Eram de um bombeiro que revolvia escombros de um prédio. Serviço que exigia rapidez e cuidado para não bater com a ferramenta nas vítimas.
Embora, um calafrio corra pela nossa espinha só de imaginar, essa é a rotina dos bombeiros, herois que nunca sabem o que encontrarão. Vira rotina, remove-se com naturalidade, sem se deixar abater, quando separam coisas pessoais dos escombros. Não dá tempo para emoções.
De vez em quando, encontra-se um cadáver. Bombeiro não tem como fugir dos olhos arregalados de pânico, quase saindo da órbita, que um morto estampa. Quando se está em serviço não há como recuar. Ele levantou novamente o enxadão e tchac, tchac, tchac, e lá se foi mais uma boa quantidade de entulhos dentro das máquinas da prefeitura. Ele já havia removido de tudo um pouco, enfrentado tantas chamas e encontrado muitos corpos, que nem se lembrava mais.
Estava cansado. Parou um pouco e se apoiou no enxadão, olhou para o sol escaldante, ainda alto, refletindo pelas paredes brancas que cairam em blocos inteiros. De repente, ao correr os olhos cansados pelos destroços, viu um tênis rosa.
Espichou os olhos na tentativa de enxergar melhor.
Prosseguiu, encurvado e, de vez em quanto, se apoiava no enxadão para se refazer do cansaço. Ele usava luvas e roupas apropriadas, que tornavam o seu trabalho estafante. O que renova o ânimo desses soldados é o sentimento de estar salvando vidas. Por alguma razão, a cada enxadada, à sua mente retornava a imagem do tênis.
Endireitou o corpo dolorido, apoiou-se no cabo da ferramenta e foi em direção ao tênis que chamara a sua atenção. Examinou-o. Era novinho.
Voltou ao trabalho, absorto em pensamentos, enquanto removia pedras e ferragens. O tênis rosa mexeu com seus sentimentos. Ele não via a hora de retornar para casa e sentir o abraço meigo e carinhoso de sua filha. — Meu Deus, mais uma família que perde uma filha! Pensou com os seus botões. Nessa dor, foi inevitável fugir da imagem da filha: de olhos lindos e cativantes. Uma menina moça, cheia de vida e de sonhos. Alegre como todas as meninas de sua idade. Ela estava indo bem na escola.
— Deus permita que eu encontre essa criança com vida! Será o melhor presente de Natal para seus pais. Esse sentimento natalino de fazer o bem, o encorajou e lhe deu forças para continuar: tchac, tchac, tchac. Uma sensação gostosa de amor pela filha fez o seu coração doer e uma respiração profunda e incontrolável brotou no seu peito. Ele tinha certeza que trabalhando duro faria de sua filha uma cidadã, com melhores oportunidades na vida. — É o sonho de todos os pais, pensou!
Removendo escombros, mergulhou em lembranças. Seus olhos estavam atentos em todos os objetos pessoais que surgiam. O pensamento formou círculos concêntricos, que se foram alargando e depois de alguns tchac, tchac, tchac com o enxadão, engoliu a saliva grossa, ao ver por perto o outro pé do tênis rosa e peças de roupas.
— Meu Deus, balbuciou! Encontrei mais um cadáver. Como o pensamento voava, seu rosto foi expressando tristeza, na medida em que imaginava a dor dos pais dessa vítima. Quantos sonhos se foram! Enquanto acelerava o trabalho para desenterrar o corpo, relembrava o sorriso lindo e espontãneo de sua filha.
— Essa criança deve ser igual a minha filha, pensava. Seus pais ficarão felizes se ela estiver viva, gritou para os seus colegas.
A canseira subtraia suas forças. O suor escorria pelo rosto. — Mais algumas pedras e pedaços de gessos e chegaremos à pessoa. Ao seu redor se juntaram outros bombeiros. Todos ajudaram.
Chegaram ao corpo.
Não era somente o tênis, aquele corpo debruçado lembrava alguém, talvez, a filha de algum amigo. Ele se afastou amedrontado, isso, nunca tinha acontecido antes. Uma sensação de desconforto apertava o seu peito.
Os bombeiros gritaram: — Está morta!
E colocaram o corpo de costas sobre um plástico preto e frio. Via-se o rostinho angelical de uma linda jovem.
__ Não! Não! Não pode ser! Como darei a notícia?
Mas, era ela. Uma lágrima verteu de seus olhos. O seu coração apertava.
— Sem compreenderem, os colegas o abraçaram, tentando segurá-lo de um quase desmaio. Ele buscou forças na fé. Pegou o telefone celular e ligou para a sua mulher. Perguntou onde estava a sua filha.
— Ela foi estudar na casa de uma amiga, ela respondeu.
Soluçando e com a voz embargada, ele contou para a mulher o que acabara de ver. Prantos e gritos do outro lado da linha.
Daquela tarde em diante, a filha nunca mais correu para encontrá-lo no portão. Depois do enterro, ele foi tomado por uma sensação de tristeza profunda. Veio a noite e pela madrugada, ainda se escutava o barulho das máquinas da prefeitura e o soar de sirenes das ambulâncias e do tchac, tchac e tchac dos enxadões. A mente tagarela não o deixava a sós.
Todos se foram! A casa estava silenciosa e vazia.
E a sombra de um homem, debruçado sobre o seu próprio corpo e com as mãos no rosto, era refletida nas paredes brancas de sua casa.
O tênis rosa era o que ele comprara para a filha no Natal.
Eudes Moraes é romancista, contista, poeta e cronista. É presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú e membro da Academia de Cultura de Curitiba.