TEMPOS ESTRANHOS – Eudes Moraes

Estava saindo do buffet, onde almoço todos os dias, e ao dar os primeiros passos, me vi cercado por mulheres. Está ficando comum as pessoas se acharem donas das calçadas, param de repente e não se importam com quem quer passar. Foi o meu caso! Pedi licença, não resolveu e não tinha como seguir o meu caminho. Logo, descobri que eu estava no meio de um bate-bocas. Ulalá! Sou escritor e melhor do que ouvir é presenciá-lo, bem de pertinho e captar cada gesto, o pulsar das veias grossas nos pescoços, as ventas carregadas de ódio, as mãos que falam e o dedos em riste nas caras.

O ar estava pesado, não só pela briga, é que o mormaço estava realmente quente. O céu estava sem nuvens e o sol reinava em todo o seu esplendor, o couro cabeludo ardia e do asfalto subia um bafo quente próprio para estalar ovos. O grupo era formado por uma distinta senhora, usando óculos de grau, desses passando da hora de trocar. O tempo trabalhou em sua pele e corpo, permitindo-me de chama-la aqui de uma avó. Percebi que ela guardava traços de pessoa do bem, não era uma qualquer, dessas que a gente bate os olhos e esquadrinha rapidamente, que lhe faltou melhores oportunidades na vida. Pelos traços fisionômicos, notei que se tratava de uma família, talvez, duas filhas e as demais meninas bonitas, as netas. A senhora dava de dedo e falava mais do que camelô. A princípio, não entendi nada. Como elas não me deixavam passar porque estavam concentradas na confusão, sem querer, senti-me parte do conflito. As meninas avançavam, falavam, falavam e recuavam para dar espaço para as demais. Algumas faziam parte “da turma do deixa pra lá” e outras ajudavam a botar fogo no parquinho. No meio da confusão, estava um menino com dois cachorrinhos nos braços. Num relance, ele aparentou ser o pivô da confusão. Ele devia ter uns 15 anos, magro, bonito e com olhos vivos e marcantes. Acho que os cachorrinhos eram da raça Chihuahuas, aqueles pequeninos, que encantam aos olhos. A priori, me pareceu um menino bonzinho, mas vai saber, né! O que será que aconteceu? Na ausência da verdade, supus que os cachorrinhos eram da família e o menino estava furtando ou aprontou alguma.

A senhora, com jeito de boa gente, subiu nas tamancas. A mulher surtou e ofendia o menino com diversas acusações e xingamentos. Ameaçava surrar. Por entre, os movimentos de corpos, encontrei um vão para sair do meio da bagunça. Afastei-me e continuei assistindo de camarote. Joguei meus olhos pela rua e vi lances engraçados. No restaurante ao lado, as pessoas que estavam sentadas nas proximidades da calçada e ficaram de boca aberta. Acho que vi garfos com comida, parados nos ar. Os motoristas buzinavam e gritavam, ora, como incentivo à briga e ora, como tentativa de contribuir para encerramento da discórdia.

Com os dois cachorrinhos irrequietos embaixo dos braços, o menino chorava. Então, percebi que bem em frente existia um pet shop e os funcionários estavam assistindo tudo do lado de fora. Num passe de mágica, uma jovem senhora saiu da loja, atravessou a rua, aos gritos, e partiu para cima do grupo. — Eu ouvi tudo, a senhora não tem o direito de ofender e ameaçar o menino, ele trabalha comigo, disse a nova personagem. — Tenho sim e você devia educá-lo já que a mãe não educa, desferiu a senhora surtada. — Abaixe esse dedo, abaixe esse dedo, gritou a moça da loja. Você não é mãe dele para gritar, ofender e tentar bater nele, concluiu. — Sou livre e faço o que quero, reagiu a senhora. Por se sentir defendido, o menino criou coragem: — Fala, fala agora, tudo o que me falou, fala! — Falo sim, seu merdinha! Gritou a senhora. — Bata, bata em mim, pra você ver o que vai te acontecer. — Bato sim, quer ver? — A moça da loja intercedeu aos gritos: — A mãe dele é advogada e o pai é da polícia. Em síntese, esgotado o estoque de desaforos, uma das filhas gritou: Isso não é bonito, viu! E a moça da loja revidou: Bonita é você, sua vaca!

Terminado o bate-bocas, as ruas estavam cheias de expectadores, todos querendo saber o motivo. Bem, vamos aos fatos. O desentendimento começou porque os animaizinhos não suportavam pisar no cimento escaldante da calçada. Os cãezinhos levantavam as patinhas e choravam. E o menino não conseguia mantê-los sob os seus braços porque eles estavam irrequietos. Até que conseguisse atravessar a rua para levá-los ao pet shop, ele alternava entre o colo e a calçada. Mas a senhora tomou as dores dos animais, embora, o menino explicasse que estava fazendo o que podia, mas não estava conseguindo segurá-los no colo. — Vamos embora, disse a moça da loja. Que gentalha! Ela ajudou a carregar os cachorrinhos e com o outro braço protegeu o menino e atravessaram a rua. O bate-boca acabou! Discussões acaloradas ativam a amígdala cerebral que anula a racionalidade. As ruas estão cheias de conflitos, um espetáculo termina, até que haja uma nova estreia. Essa cena será reproduzida em famílias e entre amigos e “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Vivemos tempos estranhos!

Eudes Moraes é Presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

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