Experiência de Aprendizagem – Eudes Moraes

“A modelagem comportamental é um processo no qual os indivíduos aprendem novos comportamentos, observando e imitando os outros.” (B. F. Skinner)

Nasci numa mansão de uns quarenta metros quadrados. Cresci ouvindo, que o parto foi assistido pelo meu pai, pássaros e por onças. É estranho isso, porque ele era caçador. A mansão era de pau a pique, toda amarradinha de cipó.  O que é isso, cronista? Pau a pique era casa “luxuosa” construída de barro, entrelaçada por madeira extraída de coqueiros ou bambus. Os vãos eram preenchidos com barro branco colhido no rio. O piso da casa era feito de chão vermelho, com cheiro de poesia e de terra molhada.

Meu pai foi um homem muito importante. Era desbravador de sertões. Nas horas vagas, um lavoureiro (que cuida da lavoura dos outros) e no melhor do seu tempo, era pescador e caçador. Se contratado, era um trabalhador braçal de elite. Como explicar o porquê das onças e dos pássaros estarem de olho? Talvez, imaginassem que este cronista não seria um caçador de animais; desses astutos que não caminham, flutuam sobre as folhas secas da mata. Tornei-me sim um caçador, de ideias e palavras para poemas, contos e crônicas.

Bem, meus pais aguardavam a chegada da minha tia para os serviços de enfermeira obstétrica (tadinha, nem era uma parteira!). Como ela vinha a cavalo, provavelmente, por algum congestionamento no trânsito da mata, ela se atrasou. Dizem, que eu tinha pressa (por isso, sou pragmático) e decidi nascer antes da hora.

Meu pai, teve que “se virar nos trinta”, desinfetou o canivete de cortar Twist Tobacco (chique, né!), também conhecido por fumo de corda e – zás -, lá se foi o cordão umbilical. Com a chegada de minha tia, sua irmã, tomei o primeiro banho, em alto estilo, dentro de uma gamela de madeira, esculpida à mão em uma única peça de madeira maciça. Meu pai era um excelente marceneiro, arte aprendida de meu avô. Sem dúvida, sempre fui muito ligado à tia Ester, como se fora minha segunda mãe.

Cresci e, lá pelas tantas, minha mãe idealizou o meu futuro. Como toda mulher jeitosa, fez a cabeça do meu pai e, com minha irmã mais velha, mudamos para a cidade grande. Ela não queria que os filhos crescessem sem estudo, oportunidade que eles não tiveram.  E foram sábios, os dois conseguiram trabalho num colégio, ela era profissional de limpeza e ele um patrulheiro noturno (achei mais bonito do que guarda-noturno). Isso lhes deu os primeiros registros em carteira do trabalho. Ganhavam bem, porque as bolsas de estudos para os dois filhos, valiam mais do que o sempre miserável salário mínimo. Lá pelas tantas, para “alegria” de minha mãe, fui o único a concluir o ensino fundamental. A minha irmã desistiu! Eu daria início ao segundo ciclo, no antigo curso clássico, focado na formação intelectual por meio das letras, filosofia e línguas antigas. Mas, uma escolha de minha irmã, alterou a minha trajetória. Nos meus 15 anos de idade, minha mãe entendeu, que eu deveria ir para um seminário. Hoje compreendo a sabedoria dela. Quis me afastar do convívio com o seu genro, referência danosa, por condutas desonestas nos negócios. — “Quem casa deve ter casa, dizia meu pai, nem que seja de sapé.”

Cheguei no seminário com simplicidade e timidez. Fui muito bem recebido por todos os alunos e professores. Identifiquei-me com o Orlando Venâncio, um seminarista veterano, que estava se formando. Ele passava horas pesquisando e escrevendo a tese e exegese de sua graduação teológica. Quando não estava debruçado no grego ou no hebraico, lia muito e era um bom texto em suas homilias. Escolhi-o como minha referência e, por sua orientação, li obras interessantes. Como não existia computador e Internet, percebi que ele lia com uma régua correndo pelas páginas, grifando as ideias e frases. Ao lado, ele mantinha um dicionário para os novos vocábulos. O seu hábito de fichar os assuntos, para uso em palestras e textos, era sensacional. Como bom discípulo, copiei essas práticas. A psicologia chama isso de modelagem. O Venâncio me acolheu como seu novo amigo. A maioria dos estudantes, depois do almoço, caminhavam pelo vilarejo às margens da represa. Como eram os seus últimos dois anos, ele saia das aulas de filosofia, almoçava e nas nossas caminhadas, ele me repassava o aprendizado de sala de aula. Em voz alta, ele refletia, falava, falava e eu só escutava. Esse foi o meu primeiro contato com a filosofia. Com ele, aprendi a gostar da “mãe das ciências”. Ela me influenciou na formatação do pensamento, na capacidade de analisar perspectivas e na estimulação do pensamento crítico. Venâncio aplicou comigo os princípios da Escola Peripatética de Aristóteles, que ensinava seus discípulos, caminhando pelos jardins.

A segunda referência forte, foi do diretor geral do colégio, onde meus pais trabalhavam e estudei. Além de educador visionário, responsável pela origem das primeiras faculdades em Londrina; era brilhante como pensador, orador e crítico do pensamento contemporâneo. Seu nome era Zaqueu de Melo e ele sempre publicava ótimos artigos nos jornais. Eu o lia com admiração. Com o tempo, apropriei-me do seu estilo de escrita. A psicologia chama isso de aprendizagem por observação. Quando minha mãe pensou na ideia de me enviar para o seminário, foi com ele que ela se aconselhou. Ele me acolheu, acompanhou meus estudos e foi meu orientador. Nas férias do seminário, ele me convidava para participar de reuniões sobre livros que lia, e compartilhava os conteúdos com as lideranças da cidade. Depois, ele colocava o conteúdo em debate. Às vezes, nas férias, ele me convidava para caminhadas no seu sitio. Como sua vida era estressante, adorava ver a máquina forrageira triturando a cana-de-açúcar e o gado ruminando. Ele dizia que era como se fossem os seus desafetos. Ele era um filósofo e ensinava, ensinava e eu ouvia. Zaqueu de Melo aplicou a técnica itinerante de Aristóteles, que caminhava com seus discípulos entre as árvores de Atenas. Esse é o uso da técnica, que hoje a neurociência chama de neurônios espelhos – células cerebrais no córtex pré-motor e lobo parietal, fundamentais para a aprendizagem por imitação.

Depois, cursei psicologia e direito e novamente elegi modelos para aprendizagens. Discuti muito em sala de aula, porque eu vinha da psicanalise e o da faculdade era behaviorista. Não demorou muito e me dei conta do meu erro: descobri que a Psicologia Comportamental é ciência. Nunca me esqueço de um episódio na Faculdade de Direito. Era aluno de Milton Luiz Pereira, ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ele esboçava a aula no quadro negro, numa sala em frente da que eu estava. Exigia a mudança de sala. Numa dessas, por um descuido, permaneci na sala da frente. Num passe de mágica, entrei na sala onde estava o Ministro. A porta da sala era na frente e passava a turma em revista. Ele era de poucas palavras, esticou o dedo e disse: — “entre depois do próximo sinal.”. Não me deixou explicar e não meu deu oportunidade.  Todos gargalharam! Tomei isso como “bullying”. Não aceitei, saí dali e fui direto à administração. Afinal, eu era estudante de Direito. Recorri e nas aulas seguintes ele teve que mudar de sala.

Claro que pela vida, encontrei tantas outras pessoas que muito me ensinaram. Não sei se aprendi o tanto que gostariam, mas aprendi a enxergar a sabedoria de minha mãe e compreendi o célebre ensinamento: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. E se minha mãe tivesse letras, certamente, teria me ensinado: — Meu filho, não se deixe enganar: “As más companhias corrompem os bons costumes.” ( I Coríntios 15:33).

𝙀𝙪𝙙𝙚𝙨 𝙈𝙤𝙧𝙖𝙚𝙨 𝙚́ 𝙥𝙧𝙚𝙨𝙞𝙙𝙚𝙣𝙩𝙚 𝙙𝙖 𝘼𝙘𝙖𝙙𝙚𝙢𝙞𝙖 𝙙𝙚 𝙇𝙚𝙩𝙧𝙖𝙨 𝙙𝙚 𝘽𝙖𝙡𝙣𝙚𝙖́𝙧𝙞𝙤 𝘾𝙖𝙢𝙗𝙤𝙧𝙞𝙪́.

Aconteceu

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