A DANÇA DAS MOSCAS – Eudes Moraes

Antes de mais nada, apresento-lhes a protagonista desta crônica. Ela tem olhinhos brilhantes, asas membranosas e pousa em qualquer lugar. É importante para o ecossistema e ao mesmo tempo incomoda pra caramba! Ganhou fama de bichinho nojento porque ao mesmo tempo que poliniza as plantas, come resíduos dos ralos e devora cadáveres em decomposição. Ora, paira entre a luz e a sombra e, muitas vezes, é vista no lixo ou no luxo.

Machado de Assis lhe deu destaque na literatura, através de seu poema – A Mosca Azul. A obra narra a história de um homem que se deslumbra com uma mosca de asas douradas, passando a sonhar com poder, riqueza e “status”, o que o leva à loucura e à perda da realidade. Ainda hoje, diante de pessoas que se acham e se perdem na vaidade, é comum a expressão – “foram picadas pela mosca azul.”

Quando eu era estudante de Filosofia, certa vez, eu estava no carro de um de meus professores – grande pensador! Lembro-me que o automóvel na cor verde claro, era chique e espaçoso. A estrada não era asfaltada. A poeira vermelha encobria o mundo, por isso todos as janelas do veículo estavam fechadas. Não existia ar condicionado. Conversávamos sobre a liberdade. O papo estava interessante e ficou melhor ainda, quando de repente, pousou uma mosca sobre o painel. O filósofo chamou a minha atenção para os voos livres que ela fazia dentro do carro.

Observe que a mosca desfruta a sua liberdade de voar.

Então, podemos concluir que ela é totalmente livre, indaguei.

A sua liberdade está circunscrita à relação espacial deste automóvel, respondeu o mestre. Ela voa e pousa onde quiser, ela tem o livre-arbítrio, mas o carro a levará para onde eu quiser.

Qual a aplicação disso ao ser humano, indaguei.

Eu sabia com quem estava lidando e que essa pergunta o provocaria. Tinta certeza que teríamos reflexões para o resto da estrada e depois.

Por analogia, a liberdade humana não é plena, ele respondeu. O planeta nos restringe. O espírito humano habita um corpo limitado e mortal. A liberdade é relativa. A dimensão macrocósmica é infinita. É bom lembrar que a filosofia é a arte de tentar maximizar nossos voos, concluiu.

Amei! Nunca me esqueci dessa aula.

Voltemos à protagonista da crônica. A mosca ganhou notoriedade na literatura brasileira com Machado de Assis. A expressão “mordido pela mosca azul” tem origem no seu poema – A Mosca Azul. Ele narra a história de um homem que se deslumbra com uma mosca de asas douradas, passando a sonhar com poder, riqueza e “status”, o que o leva à loucura e à perda da realidade. Ele a usou como uma metáfora para a ambição e o deslumbramento das pessoas. Elas estão por aí na passarela das vaidades!

O tempo passou e o professor morreu!

Com estudos de neuroimagem, a ciência descobriu em 1980, que o cérebro pode tomar decisões antes que a pessoa tenha consciência delas, levando os neurocientistas à conclusão que o livre-arbítrio é apenas uma sensação ilusória da vontade. Será que a neurociência derrubou a sábia explicação do velho professor? Correrei o risco de imaginar a sua reação, se fosse vivo.

Como a neurociência trata o bem e o mal no contexto do livre-arbítrio, ele indagaria.

Há uma novidade, professor! — Qual? Ele quer saber.

A neurociência questiona o livre-arbítrio. Constatou que muitas decisões não são conscientes, iniciam-se por atividade neural, antes de se tornarem conscientes. Com ações neuronais antes da vontade de agir, a consciência humana nada gera e isso aponta para um determinismo biológico. Alguns neurocientistas, argumentam que pensamentos e ações são resultados de cadeias causais biológicas e genéticas, tornando o livre-arbítrio uma ilusão. Destarte, a falta de livre-arbítrio desafia noções tradicionais de culpa e responsabilidade penal, sugerindo uma visão mais compreensiva e menos punitiva do comportamento humano.

O professor colocou a mão no queixo e indagou: — A neurociência descobriu como melhorar a o ser humano?

Mestre, embora a decisão imediata pareça determinada, a neurociência sugere que a consciência pode atuar no longo prazo, mudando hábitos e reprogramando o cérebro através de novas experiências e aprendizados.

O filósofo deu uma gargalhada. Limpou o pigarro da garganta e acrescentou: — Se o homem não decide conscientemente, isso o torna acima do bem e do mal? No momento da sentença, a justiça condenará a atividade neural ao invés do réu?

Também esbocei um sorriso.

E o filósofo concluiu: — No romance de William Golding – O Senhor das Moscas (1954), premiado pelo Nobel de Literatura em 1983, ele descreve a fragilidade da civilização e a facilidade com que o ser humano regride ao estado selvagem. No meio de uma guerra, um avião com crianças caiu numa ilha deserta. Esses inocentes garotos, apesar de terem recebido “fina educação inglesa”, quando sozinhos, não resistiram ao ímpeto do mal e estabelecem uma sociedade selvagem. Desrespeitaram as suas próprias regras e se matam. 

Enfim, nada mudou na humanidade, ela continua má e as moscas continuam sendo moscas e chatas.

Eudes Moraes é presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

Aconteceu

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