SOCIEDADE CHEIA DO VAZIO – Eudes Moraes

O fogo foi descoberto no período Paleolítico, também chamado de Idade da Pedra Lascada. Essa descoberta foi crucial para a evolução humana. Com o domínio do fogo, as pessoas se reuniam ao redor das fogueiras e foi assim que as lendas e os contos se popularizaram.

Sou do tempo em que os jovens passavam a noite conversando numa esquina. Achavam conteúdo para a noite toda e a conversa se esticava até o amanhecer. Riam espontaneamente e as gargalhadas se propagavam no silêncio da noite. Em nossos dias, a era digital veio para ficar. Surgiram os chats em grupo com direito de envio de emoticons, imagens e arquivos. Usei o ICQ, Orkut, Skype e Telegram. Quem reina no momento é o WhatsApp que o brasileiro batizou de Zap, mas o Elon Musk acaba de anunciar o XChat, que vai dar o que falar!

No começo da Internet, o intelectual Millôr Fernandes, nunca escondeu a preocupação com a banalização da literatura e do conhecimento. Embora reconhecesse a tecnologia, temia que essa facilidade nivelasse por baixo a produção intelectual. Millôr desdenhava a ideia de que a tecnologia melhoraria a escrita e apostava que a facilidade da web diminuiria a qualidade do conteúdo. Em uma sátira famosa, ele comparou o avanço tecnológico ao surgimento do “L.I.V.R.O.” (Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas). Foi uma forma dele fazer uma paródia sobre a superioridade do papel sobre as telas. Nessa época, outra voz contrária se ergueu na Itália: seu nome era Umberto Eco, filósofo, linguista de fama internacional e diretor da Escola Superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha. É dele a frase – “A internet deu voz aos imbecis”. Ele não se conformava com o nivelamento de especialistas com as pessoas sem conhecimento, a quem chamava de “legiões de idiotas”.

Não há dúvida, que a Internet contribuiu com todos os segmentos culturais, da educação e no mundo dos negócios. A necessidade de comunicação é antiga e além das conversas ao redor das fogueiras, pela arte rupestre, os homens primitivos se comunicavam através de pinturas em cavernas. Essa linguagem visual, servia para contar histórias sobre caçadas, ensinamentos e rituais de passagens entre gerações. Com o tempo, essas gravuras primitivas foram modernizadas e hoje são chamadas de stickers (adesivos), emojis, GIFs e memes. A conversa em grupo, sempre foi uma necessidade emocional de socialização, proteção e sobrevivência.

Por causa dessas profecias do Millôr e do Umberto Eco, por curiosidade, ao escrever esta crônica, fiz uma rápida pesquisa sobre grupos de Zap. Ouvi de amigos diversas experiências: — Saí de grupos de família porque a conversa não passava de bom dia/boa noite/boa semana/bom domingo. E encheu o saco as tais figurinhas! Outro, lembrou-me sobre os chatos que cortam os assuntos alheios: — Isso ocorre, quando todos estão conversando sobre algum tema de interesse coletivo e, do nada, entra um retardatário, corta o papo e quer tratar de algo de interesse pessoal ou bobo. — E os barraqueiros? Indagou outra pessoa. Geralmente, são aqueles que têm a incrível mania de discordar de tudo e de todos. — E têm aqueles que chegam atrasados nos grupos, correm os olhos pelas diversas opiniões encerradas. Para fazerem jus à fama de chatos, resolvem discordar do que já foi conversado. Geralmente, termina em briga. — Não aguento mais os conselheiros de plantão! Dar palpites sobre a vida dos outros é fácil. Os chatos têm conselhos e receitas para todos os males. — E o que tem de escritores nesses grupos! Cito alguns exemplos: “agente vamos” (ora, nesse caso, não se trata de um agente secreto), então, o certo é “a gente” (porque “nós” é um pronome pessoal). A luz ascende e apaga (acende (com ‘c’) significa ligar luz/fogo, enquanto ascende (com ‘sc’) significa subir ou elevar-se), preciso de alguém para concertar (melhor chamar o maestro da filarmônica), seje, esteje, menas, meia cansada (não merecem comentários), pra mim fazer (mim não pratica ação), Há ou A: (dói no ouvido o famoso – há tempos atrás. Ora, o há se refere ao tempo passado e é desnecessário o atrás, Seção ou Sessão: (seção – parte, repartição) e sessão (tempo, reunião). — Prefiro ficar calada, ultimamente, noto que as pessoas estão vazias, agressivas e briguentas.

Ah, erro de digitação é muito diferente de erros de português, né!

Diante desses relatos, consultei o Google. “O “eu acho” em grupos de Whats, se baseia em suposições ao invés de fatos e verdades. As opiniões cometem erros de julgamento, mas as pessoas têm a necessidade doentia de serem aceitas e se utilizam dos “achômetros” para evitar a sensação de exclusão social. Ficar quieto ou dizer que “não sabe” denotam fraqueza ou insegurança, por isso chutam opiniões que as fazem competentes. O ambiente digital, tem sido propicio para a propagação de “teorias de conspiração” e informações falsas (fake news) que parecem fatos, mas são apenas factoides.

Albert Schweitzer, filósofo e escritor, em sua obra – Decadência e Regeneração da Cultura -, faz uma reflexão profunda sobre o declínio da civilização ocidental e da crise na cultura. Ele argumenta que o processo de degeneração é motivado pelo desprezo do pensamento ético e da reflexão crítica. Schweitzer critica a tendência de valorizar exageradamente o progresso material e tecnológico em detrimento do desenvolvimento humano. Para o sociólogo, Zygmunt Bauman, em seu best-seller – O amor líquido -, a decadência da qualidade não se refere a um declínio técnico, mas sim a uma transformação cultural e social provocada pela modernidade líquida. A qualidade das relações humanas e da vida em geral foi corroída pela busca por rapidez, descartabilidade e satisfação imediata. O sociólogo via as redes sociais como uma armadilha que reduz a qualidade das interações reais. Elas facilitam a fuga de controvérsias e diálogos, reprimindo habilidades sociais essenciais, como a empatia e a negociação de diferenças. Bauman destacou que a qualidade da educação está sendo destruída pelo imediatismo e pela tecnologia, que transforma o conhecimento em uma “biblioteca de fragmentos” sem sabedoria ou atenção profunda.

O “Poema em Linha Reta” de Fernando Pessoa exemplifica essa crítica, denunciando a hipocrisia e a falta de sinceridade nas relações sociais, onde as pessoas escondem suas falhas para manter uma fachada. A pesquisa do INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional, no Brasil, em pesquisa recente, mostra que, embora a alfabetização básica avance, uma grande parcela da população ainda enfrenta dificuldades para usar a leitura e a escrita no dia a dia. Cerca de 29% da população (15 a 64 anos), em torno de 40 milhões de pessoas têm limitações severas de leitura e escrita.

Eudes Moraes é presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú e membro da Academia de Cultura de Curitiba.

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