VOCÊ PODE FAZER A DIFERENÇA – Eudes Moraes

Seja a mudança que você quer ver no mundo.
(Mahatma Gandhi)

Fui convidado para uma palestra sobre as OSCs – organizações da sociedade civil. Neste artigo faço um resumo.
O princípio fundamental de todas as entidades sem fins lucrativos é mobilizar a sociedade civil para atuar, onde a iniciativa pública e privada não alcançam ou não atuam de forma eficiente. As Organizações da Sociedade Civil pertencem ao terceiro setor da economia e agem de forma independente. É importante ressaltar que elas não estão à margem da lei, precisam ter personalidade jurídica, estatutos legais que as regem, elaborar atas de suas decisões; registrar as que precisam resguardar interesses de terceiros, prestar contas e publicar balanços. O Código Civil, base do direito privado, junto com leis especificas aplicadas às instituições, determinam como devem ser criados os direitos dos associados e as regras básicas de governança.
Eu sabia que o espírito do convite estava mais para as minhas experiências. Fiz algumas incursões por crenças e princípios que sempre me norteiam e compartilhei minha trajetória como colaborador em diversas entidades de classes. Contei-lhes sobre o meu aprendizado como diretor na AECIC -Associação dos Empresários da Cidade Industrial de Curitiba. Junto com os demais membros da diretoria, realizamos uma gestão planejada, que resultou em grandes movimentações da classe empresarial da cidade. Um dos eventos se tornou tradicional e ainda é muito concorrido. Escolhíamos uma autoridade para receber o título anual, denominado – Personalidade AECIC. O evento começou pequeno e explodiu. Até hoje faltam cadeiras para tantas adesões ao almoço, que é realizado num dos clubes sociais da cidade. Fomos criativos na gestão e sempre promovíamos palestras e debates com autoridades de todas as esferas de governos.
Logo depois, aprendi na diretoria da ADVB/PR – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil – Seção Paraná, com sede em Curitiba. A nova diretoria foi desafiada a resgatar o glamour que a entidade tinha perdido. Percebemos logo no início, a importância de expandir a atuação para o interior do estado para fortalecer o ambiente de negócios através de capacitação e premiações. O segredo principal foi centralizado no estabelecimento de parcerias estratégicas, na oferta contínua de qualificações práticas em marketing, vendas, comunicação e gestão empresarial, impulsionando a competitividade das corporações. Fortalecemos o – Prêmio Top de Marketing -, considerado o “Oscar do Segmento”, principal ação anual da entidade para reconhecer empresas que se destacavam por estratégias criativas e de alto impacto.

Eu senti que o convite era para que eu focasse: como realizar sem dinheiro e com a má vontade de quem se propõe a fazer e não faz. Acho que essa etapa da minha conversa foi a que mais incomodou. Por entre olhos atentos e brilhantes, percebi muita gente se contorcendo nos assentos. Convivi com diversos perfis de pessoas. É comum encontrarmos pessoas despreparadas para desempenharem as tarefas que os cargos requerem. É verdade também que esse não é o pior defeito. Quando a pessoa quer, ela arregaça as mangas, busca ajuda e se supera. Desanimador é encontrar as que assumem cargos apenas por vaidade, para fazer constar no seu currículo e ganhar visibilidade. Essa presença decorativa destrói. Isso é muito ruim para as entidades.

Há muitos anos, sou membro da Academia de Cultura de Curitiba (ACCUR). Cansado da mesmice e, principalmente, porque não tem havido alternância no poder, resolvi levantar bandeira por mudanças. Conversei com diversas lideranças, mas o que mais me marcou foi o que um jornalista me respondeu: — Não mexa com isso, dá muito trabalho, contente-se com o fato de ser um acadêmico. Mas eu não queria ser apenas mais um. Esse perfil, infelizmente, é o mais fácil de encontrar dentro das entidades. As pessoas ostentam o título e não querem contribuir com nada. Querem os benefícios e não estão dispostas a ajudar para que a instituição se torne mais expressiva e forte. A maioria faz parte dessa galera. É fácil identificá-las: 1- O Sobrecarregado assume responsabilidades mas não consegue segurar os seus próprios pratinhos que vivem caindo. Não falta tempo, falta organização; 2- O Desconectado não acompanha e não enxerga as ações em marcha, não entende o propósito maior e a importância da sua função. Perde a motivação e se afasta. 3- O Deslocado tem boa vontade, mas está numa tarefa que não condiz com suas habilidades, interesses e conveniências. 4- O Centralizador tem dificuldade em delegar ou trabalhar em equipe. Acredita que apenas ele consegue fazer as coisas do “seu jeito”, não faz e não deixa ninguém fazer. 5- O Crítico de Sofá aponta defeitos, reclama da gestão e das ações, mas nunca se voluntaria para colocar a “mão na massa” e resolver os problemas. 6- É comum encontrarmos secretários que não sabem escrever atas e não cumprem as obrigações estatutárias; tesoureiros que não têm noção do que seja uma prestação de contas e um balanço, mas também não pedem ajuda e não querem aprender. 7- O pior perfil é a do extremamente vaidoso, que veio ao mundo para desfilar e sair nas fotos. É bom lembrar que o vaidoso que faz é absolvido do seu pecado.
Aos poucos, a gente identifica quem faz e quem senta em cima e não resolve.
A superficialidade na gestão de entidades, geralmente ocorre pela falta de dedicação exclusiva. Como a maioria atua de forma voluntária ou concilia o cargo com o trabalho principal, a escassez de tempo, a sobrecarga e a ausência de remuneração limitam o aprofundamento técnico e o tempo disponível para a organização. A falta de remuneração, não deveria reduzir a prioridade e ensejar a irresponsabilidade, afinal, trata-se de um trabalho voluntário e as entidades dependem de nós! Como elas não têm recursos, é preciso que os colaboradores sejam criativos para que elas funcionem e apresentem resultados. O fato de ser um trabalho voluntário e não remunerado, não significa que tenhamos que ser indolentes no que nos propomos a fazer.


De maneira geral, as pessoas querem apenas os bônus sem os ônus.
Nunca me esqueci de um caso que vivenciei nos meus tempos de Rotary Club. Três meses depois, um comerciante nos procurou na diretoria e disse: — Quero avisar que sairei do clube. — Por que? Indagamos. E ele, com a maior naturalidade, respondeu: — Durante esse tempo, não fechei nenhum negócio para a minha empresa. Ele se esqueceu que o lema principal de Rotary é “Dar de Si Antes de Pensar em Si”. Isso se aplica também nas entidades.
Para concluir e descontrair, contei-lhes sobre um fato impactante e engraçado que li na obra – As 48 lições do poder -, escrito por Robert Greene. O livro traz, como exemplo, as ações de Henry Kissinger. Ele fez história como diplomata e especialista em geopolítica americano, quando serviu como Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, nos governos dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford. Essa história envolve um relatório em que o seu assistente, o diplomata Winston Lord, teve que trabalhar dobrado. Consta que Kissinger pediu para Winston Lord preparar um relatório secreto sobre uma situação conflitante. O diplomata passou dias trabalhando. Ao entregá-lo, Lord o recebeu de volta com a anotação: — “É o melhor que você consegue fazer?”. Winston Lord reescreveu tudo, aprimorou o documento e o enviou novamente. De volta, recebeu a mesma pergunta. Depois de descer diversos livros da biblioteca e reescrevê-lo, Lord disparou: — “Droga! Sim, é o melhor que consigo fazer”. Ao que Kissinger respondeu: “Tudo bem, então acho que vou ler desta vez”.
Como dirigente, sempre tive vontade de usar a estratégia de Kissinger, para que os superficiais se empenhem e busquem o melhor resultado. As OSCs – organizações da sociedade civil ganharão se formos atentos, dedicados e darmos o nosso melhor.
Aprendi muito com as pessoas organizadas e disciplinadas. Essas são as melhores e as entidades ganham muito. Elas antecipam-se aos problemas e agem com iniciativa, focando em soluções, antes que situações saiam do controle. Esse é o segredo para que oportunidades sejam criadas, ao invés da indiferença, da preguiça e das críticas destrutivas. Sempre acreditei que não basta reunir, é preciso despertar no grupo o espírito ambicioso de mudanças e isso se chama união. Se conseguimos alinhar esforços na busca de determinados objetivos, transformamos.
Por fim, parafraseei John F. Kennedy, em seu discurso de posse em 20 de janeiro de 1961; “Não pergunte o que seu país (a sua entidade) pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu país (pela sua entidade)”.

Eudes Moraes é presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú.

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